on terça-feira, 21 de junho de 2016
Hoje tropecei num blog novo, Fora de Borda, cujo primeiro post toca num assunto que tenho vindo a tentar abordar aqui. Inicialmente este texto era uma resposta a esse post, mas entretanto expandiu-se e mutou-se de tal forma que decidi publica-lo aqui.

O texto foca-se na questão da legitimidade para discursar sobre determinados temas, no contexto do ativismo lgbt e feminista. Ficam aqui alguns pensamentos que me surgiram ao ler o texto.

Tenho-me tornado cada vez mais convicto de que o critério que confere legitimidade ao discurso de alguém não será apenas a identidade, mas principalmente a experiência. A lógica por trás do critério "identidade" parte do princípio que todas as pessoas dentro de uma determinada categoria identitária terão passado, relativamente a dinâmicas sociais e institucionais de opressão, por experiências semelhantes. Apesar de este critério não ser perfeito (compare-se, por exemplo, os recursos disponíveis a um homem gay a viver numa aldeia no interior do país, com um homem gay a viver num meio urbano), era suficientemente satisfatório para poder ser aplicado na maioria das situações. No entanto, dois "problemas" têm vindo a surgir: 

1) o foco crescente na interseccionalidade de identidades é uma coisa boa, mas complica a aplicação deste critério exclusivamente identitário no apuramento de "legitimidades" para "falar em nome de [x]". Por vezes torna-se complicado entender até que ponto faz sentido alguém falar em nome de [x], tendo em conta que essa pessoa é, em simultâneo, [x], [y] e [z] - até que ponto é que pessoas [x] que não sejam [y] e/ou [z] partilham experiências com a primeira pessoa (e vice-versa) e, consequentemente, poderão as pessoas [x] sentir-se mal representadas uma vez que não são [y] ou [z] (e, da mesma forma, poderá a primeira pessoa sentir-se mal representada pelo discurso de alguém que não seja [y] ou [z]). Será legítimo alguém trazer para a discussão assuntos relativos às identidades [y] e [z] numa discussão sobre [x]? Ou será legítimo sequer discutir [x] sem ter em consideração as pessoas que também serão [y] e/ou [z]? Tenho visto algumas trocas de ideias sobre este assunto e ainda não faço ideia sobre como começar a responder a nenhuma destas questões.

2) a fluidez e abertura de determinadas identidades permitem que mais pessoas se encontrem dentro da mesma categoria identitária (com todas as vantagens que isso pode trazer à pessoa) mas surge o risco de se diluir as experiências relativas a essa identidade. Estar aberto a diferentes vivências dentro de uma determinada categoria identitária é uma coisa boa, mas pode tornar-se algo negativo se essa categoria identitária for resumida a nada mais que um mínimo múltiplo comum entre pessoas que têm experiências, vivências e que estão sujeitas a dinâmicas de privilégio extremamente diferentes. Este é um ponto em relação ao qual que eu, como pessoa trans, cada vez mais me questiono. A definição atualmente mais utilizada de "trans" é "pessoa cujo género difere daquele que lhe foi atribuído à nascença", não tendo em conta coisas como, por exemplo, disforia, transição clínica ou apresentação social. Como tal, existem pessoas trans que estão sujeitas a opressão por sofrerem disforia, estarem a fazer uma transição clínica e/ou social, e existem pessoas trans que não passam por nenhuma destas experiências e, como tal, não estão sujeitas à opressão que lhes está associada. Terão outros problemas e estarão sujeitas a outras dinâmicas de opressão, mas isso é algo que eu não consigo avaliar ou comentar por não fazer parte desse grupo de pessoas. O que me trás ao que eu estava a dizer: apesar de sermos pessoas trans, podemos estar sujeitos a dinâmicas de opressão extremamente divergentes, o que levanta a questão: "mesmo sendo todos trans, quem é que tem legitimidade para falar sobre o quê?". Será legítimo, por exemplo e tendo em conta que o acesso aos cuidados de saúde é um dos grandes temas do ativismo trans, uma pessoa que não passou pelo processo clínico de transição falar sobre o mesmo? E será adequado, tendo em conta que outro grande tema se prende com questões puramente identitárias, uma pessoa trans que passou pelo processo clínico falar sobre a legitimidade da identidade das pessoas trans que não o fizeram? Se avaliarmos estas perguntas pelo critério da identidade, a resposta é "sim" a ambas; no entanto, pessoalmente, penso que tal não faz qualquer sentido. Creio que isto ilustra bem o problema de agruparmos pessoas (e, consequentemente, atribuirmos legitimidade) de acordo com um critério mínimo e pouco ou nada representativo das experiências que as pessoas têm em relação aos diferentes eixos de opressão/privilégio.

O que me trás de volta àquilo que eu estou a tentar defender: o critério prioritário para atribuir legitimidade ao discurso de uma pessoa sobre um determinado tema deve ser a vivência da pessoa, não apenas a sua identidade. 

No entanto, entendo que este critério também possa ter alguns problemas. Um dos problemas é algo que eu por vezes sinto no meio de discussões sobre feminismo e misoginia. Em diversas ocasiões presenciei e participei em discussões sobre a opressão que as mulheres sofrem, na primeira pessoa, e tive vontade de intervir (e, por vezes, fi-lo). Eu sou um homem, portanto à partida não teria nada de relevante a acrescentar a uma discussão dessas. No entanto, vivi a maior parte da minha vida sendo percecionado e tratado como uma mulher e, portanto, passei por muitas das experiências que as mulheres passam. Tenho então, ou não, legitimidade para intervir? Eu diria que sim, porque dou prioridade à vivência em detrimento da identidade, no entanto surgem-me outras questões que me fazem pensar várias vezes antes de dizer algo. Partindo então do princípio que é legítimo eu falar, será adequado? Será útil eu desviar a conversa para incluir a experiência de um homem, quando se está a discutir misoginia e sexismo? Será adequado eu fazer um apelo à inclusão de pessoas que não são mulheres, quando se está a discutir a opressão sofrida por mulheres? Será isto sequer um apelo a uma discussão mais inclusiva, ou será uma invisibilização do problema da misoginia? Será que só o devo fazer se apresentar um disclaimer prévio em que explico que a minha experiência se refere apenas ao passado, quando era percecionado como mulher, exigindo que me exponha como pessoa trans (coisa que não costuma ser um problema para mim, mas será para outras pessoas) e possivelmente tendo de fazer uma pausa na discussão para esclarecer às pessoas presentes qualquer dúvida sobre questões trans (coisa que nem sempre tenho paciência para fazer e que provavelmente irá descarrilar a discussão que estava a acontecer previamente)? Este é outro monte de perguntas às quais eu ainda não sei responder. Normalmente tento avaliar o espaço onde estou, as pessoas e o rumo da conversa antes de tomar uma decisão sobre falar ou não.

Esta questão é também levantada no Fora de Borda:
As dimensões das identidades não são fluídas? Então cada ‘voz’ pode ficar imediatamente sem validade perante o decorrer do tempo, pois todos os espaços e tempos das nossas vidas são parte integrante de quem somos, e quem eu sou agora que escrevo, poderá não ser exatamente quem vai colocar o ponto final neste texto.
Esta é uma questão que me faz pensar e que já abordei antes neste blog (de uma perspetiva pessoal, não reivindicativa). Somos nós uma soma integral de tudo o que fomos no passado, ou somos apenas quem somos agora? E de que forma é que isto influencia a nossa legitimidade para falar sobre identidades que tivemos no passado mas que já não temos presentemente?

Todo este post levanta perguntas às quais não sei responder. Duvido sequer que, para muitas delas, exista uma resposta absoluta. Mas cá ficam as questões, para quem quiser pensar nelas e trocar ideias.
on quarta-feira, 4 de maio de 2016
Lembram-se daquele post que fiz há pouco mais de um ano sobre o mistério das cirurgias em Coimbra? Este ano temos a sequela desse filme, uma espécie de "O Império Contra-Ataca" mas com menos Jedis e plot-twists. Aliás, nada nisto é um plot twist, parece ser apenas uma repetição daquilo que tem sido dito ao longo dos últimos anos. Vamos então ver:

video

Isto passou hoje no jornal da noite na SIC. O conteúdo do vídeo consiste apenas no texto referente ao direito de resposta do hospital de Coimbra, após a reportagem que passou em março do ano passado. Podem ler o conteúdo do vídeo de seguida:

"Por decisão da Entidade Reguladora para a Comunicação Social, passamos a emitir direito de resposta do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra à reportagem especial emitida pela SIC no Jornal da Noite de 17 de Março de 2015, que abordou casos de transexuais à espera de cirurgia para mudança de sexo.

DIREITO DE RESPOSTA
Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, EPE

1. Em finais de 2011, o SNS ficou sem a possibilidade de dar resposta a estes utentes, uma vez que o único cirurgião do SNS (Hospital de Santa Maria) reformou-se, sem que deixasse uma "escola", ou alguém especializado que pudesse dar continuidade a essa actividade; tão pouco foram publicados artigos científicos em revistas de impacto nacional ou internacional;

2. Perante este vazio, o CHUC entendeu assumir a responsabilidade de criar uma unidade que respondesse às necessidades do país nesta área. Foi assim criada a URGUS, que integrou médicos das várias especialidades, que na sua prática clínica já tinham experiência em reconstruções genitais por lesões traumáticas e por outras patologias. Esta Unidade integrou especialistas de cirurgia plástica, ginecologia, endocrinologia, urologia, psiquiatria e psicologia;

3. Em 2012, a URGUS começou a realizar as intervenções necessárias e, a pouco e pouco, foi-se dotando das competências adequadas para atingir os objectivos a que se propôs;

4. Neste momento, foram já realizadas 39 intervenções e 10 doentes já terminaram os respectivos processos de reatribuição sexual;

5. Foi explicado à jornalista que todo o processo de reatribuição sexual feito no CHUC é de acordo com as guidelines internacionais, por isso complexo e demorado, incluindo a avaliação diagnóstica que pode levar vários meses, a terapêutica hormonal num período superior a um ano, a submissão à Ordem dos Médicos para obtenção de autorização para início das intervenções cirúrgicas e, finalmente, as cirurgias, que exigem em geral 5 a 6 tempos operatórios por utente.

6. Foi também explicado à jornalista que neste momento a unidade não tem utentes à espera para além dos tempos clinicamente aceitáveis, sendo que para iniciarem as intervenções cirúrgicas, estão preparados 7 indivíduos, estando à data, um total de 25 em avaliação clínica;

7. Esta reportagem não demonstrou de forma clara o papel da URGUS, o qual foi largamente explicado à Senhora jornalista pelos vários especialistas que a constituem, não tendo sido garantida assim uma informação correcta aos cidadãos;

8. Assistiu-se o vilipendiar por alguns colegas, com notório intuito de nos denegrir e acabar com esta Unidade como instituição do SNS, utilizando métodos que são ofensivos para o bom nome da instituição e para os profissionais envolvidos.

9. Afirmações como as que "não dávamos resposta às solicitações de outros hospitais", fez com que os responsáveis do CHUC já solicitassem a essas unidades de saúde o envio e a relação dos doentes que teriam sido referenciados e, alegadamente, rejeitados.

10. Foi feita de imediato uma queixa à Ordem dos Médicos pois esta matéria fere os princípios éticos e deontológicos da profissão médica;

11. Foram dadas orientações aos nossos advogados para ser feita uma queixa-crime ao DIAP para eventual responsabilização de afirmações e comportamentos ao longo deste processo."

Assim de repente houve uma série de coisas neste direito de resposta que me deixaram imediatamente apreensivo. Então vamos revisitar este pedaço de informação publicado em 2014:


Em 2014 a URGUS declara que 10 pessoas já concluíram o seu processo. 2 anos depois, vêm dizer que 10 pessoas já concluíram o seu processo. Ora, 10 menos 10 dá um grande total de zero pessoas a concluir o seu processo durante os últimos dois anos. De alguma forma a URGUS achou que isto era uma boa defesa contra a acusação de que não andam a dar resposta aos utentes transsexuais. Isso ou acham que nós andamos aqui a dormir e que não temos qualquer memória a médio/longo prazo. Também mencionam 7 pessoas em fila de espera e outras 25 em fase de avaliação, os mesmos números apresentados hoje neste direito de resposta.

Nesse mesmo ano, afinal, já tinham concluído 26 processos:

Devem ter feito ctrl+Z a 16 pessoas entretanto, porque hoje disseram que afinal foram só 10. Esse mesmo número de utentes concluídos aparece também na reportagem da SIC em março do ano passado, sendo que nessa reportagem é-nos também dito que fizeram "quase 40" cirurgias. Vamos assumir o número mínimo a que essas "quase 40" se podem referir: digamos umas 35 cirurgias (menos que isso já estaria demasiado longe de "quase 40"). Portanto, façamos uma estimativa de 35 cirurgias concluídas entre 2012 (data em que a URGUS começa a fazer cirurgias) e 2015, cerca de 8.7 cirurgias por ano. Vamos arredondar isso para 9 (pobre coitada da pessoa que tenha feito 0.7 cirurgias). Portanto, assumindo o número mínimo possível de cirurgias declaradas pela URGUS e arredondando os cálculos por excesso, temos 9 cirurgias por ano entre 2012 e março de 2015. Hoje, a URGUS diz-nos que fez um total de 39 cirurgias, ou seja, 39 (total) menos 35 (feitas até março de 2015) = 4 cirurgias feitas entre março de 2015 e maio de 2016. O que é inconsistente com essa média de 9 por ano, a não ser que a URGUS tenha, por alguma razão, diminuído para menos de metade o número de cirurgias que faz anualmente. 

Os números não favorecem nada o caso da URGUS. Vamos agora olhar para outros 2 pontos interessantes:

No ponto 5, fazem menção a "guidelines internacionais". Não sei a que "guidelines internacionais" é que a URGUS se refere, mas as guidelines mais recentes publicadas pela WPATH (a maior associação de profissionais de saúde especializados na área trans) não referem nenhuma autorização de uma entidade como a Ordem dos Médicos como requisito para qualquer intervenção cirúrgica.

No ponto 6 tentam esconder-se por trás da ambiguidade da expressão "tempos clinicamente aceitáveis", sem definir exatamente o que é que isto significa. Pelo o que observo, parece que Coimbra considera como "aceitáveis" os tempos de espera que levam pessoas ao desespero e/ou a contrair dívidas para poder pagar cirurgias em hospitais privados. 

Eu podia ficar aqui o resto da noite a ressabiar, mas não creio que valha a pena. Quero apenas encerrar este post com um agradecimento à jornalista que fez a reportagem que passou na SIC em março de 2015, que agora se encontra numa péssima situação à custa deste circo todo de Coimbra! 
on terça-feira, 19 de abril de 2016
Muito se fala sobre a questão da despatologização e despsiquiatrização (eu nem sei se esta palavra existe realmente, mas já a vi a ser atirada por aí) da transsexualidade. É um assunto que eu quero um dia elaborar neste blog, mas para já vamos tentar ver exatamente o que é que estas palavras significam na prática. 

Vou começar por fazer um unpacking do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM), 5ª edição (a edição mais recente aquando da escrita deste post), publicada em maio de 2013.

Esta análise não é exaustiva; vai focar-se nos pontos que com mais frequência parecem dar origem a mal-entendidos e desinformação em relação ao que é descrito clinicamente como "Disforia de Género".

Vamos começar por ver onde é que a condição "Disforia de Género" encaixa:


A primeira coisa que salta à vista é o facto de a disforia de género estar separada da secção referente às disfunções sexuais ("Sexual Dysfunctions"). É também de notar que é a única categoria que não inclui "Dysfunction" ou "Disorder" no seu nome.

Olhando para os membros de cada grupo de trabalho encontramos o seguinte:


Poderá ter sido um descuido que levou ao esquecimento da atualização da denominação nesta secção, ou não. Espantou-me ver Kenneth Zucker como chair desta secção. O nome soava-me familiar e uma pesquisa rápida no google mostrou-me um número considerável de links que ligam este médico a acusações de promoção de "terapias reparativas" para pessoas, principalmente crianças, transsexuais. De notar é também a presença de Ray Blanchard, infame pelo cunho da palavra autoginecofilia e da sua respetiva "tipologia de transexualismo" (que, além de redutora e estigmatizante, ignora por completo a existência de homens transsexuais). É possível que a sua presença nesta secção se cinja ao capítulo referente às disfunções sexuais, mas não me é possível descartar por completo a possibilidade de também ter contribuído para o capítulo referente à disforia de género.

Um bocado mais abaixo podemos encontrar Zucker mais uma vez:

Não é claro qual dos grupos de trabalho terá tido um contributo maior na elaboração do capítulo referente à disforia de género. 

(só comentei os nomes que já conhecia previamente, se alguém reconhecer mais algum destes nomes e tiver algo que considere relevante referir, deixem-me um comentário ou um email!)

Ao ver a lista dos códigos deparei-me com o seguinte:


Não ia dar qualquer atenção a esta secção até reparar que "Transvestic Disorder" pode co-existir com autoginecofilia. Portanto, temos algo que não tem nada a ver com identidade de género (travestismo) misturado com uma condição que "descreve" (pessimamente) vários tipos de mulheres transexuais.

A observação seguinte não está diretamente relacionada com a questão da disforia, mas não consegui deixar de achar curioso o seguinte:


Coisas como discórdias com vizinhos, salário baixo ou ser vítima de um crime constam numa lista de patologias psiquiátricas. Isto ajuda um bocado a colocar em perspetiva o quão "patológicas" serão realmente consideradas as condições descritas no DSM.

Durante o capítulo introdutório, é definido aquilo que é considerado "doença mental":


Achei apropriado incluir também o parágrafo que segue a definição para dar ênfase ao facto de o DSM encorajar os profissionais de saúde a agir da forma que for mais benéfica para os utentes, mesmo que não seja formalizado um diagnóstico do que quer que seja. 

O capítulo referente à Disforia de Género começa com uma breve introdução aos conceitos mencionados ao longo do texto. Mesmo no final, pode-se ler:


Portanto, fica desde o início esclarecido o facto de a disforia se referir ao sofrimento ("distress") proveniente da incongruência entre o género da pessoa e o género que lhe foi atribuído, não à identidade da pessoa. Também é de notar que é reconhecido o facto de nem toda a gente cujo género difere daquele que lhe foi atribuído sofre de disforia (pelo que o que é descrito neste capítulo, então, não se aplicará a essas pessoas). 

O documento segue então para os critérios de diagnóstico, que estão divididos entre disforia em crianças e disforia em adolescentes e adultos. Em relação às crianças, os critérios resumem-se à rejeição de atividades estereotipicamente associadas ao género que foi atribuído à criança juntamente com um desejo forte de ser de um outro género (não necessariamente o género "oposto"). 



Nos adultos, os critérios parecem mais focados nas questões físicas e anatómicas. Em ambos os casos, os critérios de diagnóstico incluem questões físicas, sociais, convicções fortes de pertencer a outro género (diferente do que foi atribuído à nascença) que têm de estar presentes durante, pelo menos, 6 meses e têm de causar sofrimento clínico significativo e/ou dificuldades a nível social e/ou ocupacional. Os critérios prevêem a existência de pessoas intersexo (portadoras de "perturbações de desenvolvimento sexual", para seguir a definição que consta no documento) com disforia de género.

Em relação aos adultos, é referida a possibilidade de uma pessoa com disforia de género optar por não se submeter a qualquer intervenção clínica:


No entanto, também é referido o facto de a maioria das pessoas com disforia de género procurarem e precisarem de intervenção clínica (hormonal e cirúrgica) e que muitas estão em risco de suicídio enquanto não têm acesso às intervenções que precisam.

Em relação aos adultos, é reconhecido o facto de existirem pessoas cuja disforia só se manifesta após a puberdade:

Ou seja, não é necessário uma pessoa "saber desde pequena", ao contrário do que um dos maiores estereótipos sobre a transsexualidade dita. 

É também interessante ver que os autores admitem que diferentes contextos culturais podem interferir no diagnóstico, sendo que em alguns contextos poderá nem ser possível aplicar os critérios:



O documento também prevê a existência de pessoas que, apesar de terem comportamentos, atitudes ou gostos associados ao género oposto, não sobrem disforia:


Ou seja, as pessoas que não se conformam às expectativas sociais do seu género não recebem, apenas por isso, um diagnóstico.

Algo que vejo com alguma frequência é a ideia de que quem tem esquizofrenia não pode ser diagnosticado com disforia de género. No entanto, o DSM diz o contrário:




Rondas bónus! 

Já que tenho o DSM aberto, vamos olhar para outras secções que normalmente são trazidas ao barulho quando se fala sobre transsexualidade.

Bónus 1: Travestismo

Ao contrário do que já vi ser afirmado por algumas pessoas, o DSM não considera o travestismo como uma perturbação. O que consta no DSM é o que chamam de "transvestic disorder", que se encontra dentro da secção das parafilias. No entanto, é feita uma diferenciação entre parafilia:



e perturbações parafílicas:

Ou seja, só são diagnosticados como perturbações os casos em que a parafilia causa uma diminuição da qualidade de vida da pessoa ou causa danos a terceiros (sendo considerado algo normal em qualquer outro caso). Vamos então olhar mais de perto a perturbação de travestismo:


O ato de travestismo tem de causar uma diminuição da função (social, laboral, etc) de um indivíduo para ser considerada uma perturbação;

Outro ponto curioso: 

Portanto, uma mulher transsexual provavelmente não poderá ter fetiches, de acordo com estes critérios. Curiosamente, consideram que a presença de autoginecofilia um ponto a "favor" para um diagnóstico de disforia de género. Seria interessante mostrar isto ao monte de pessoas que dizem que a presença de autoginecofilia anula o diagnóstico de disforia de género (argumento que eu já vi várias vezes a ser feito por quem tenta pintar as mulheres transsexuais como homens tarados).

Outro pedaço de informação que achei interessante:


Consideram que o travestismo pode desenvolver-se e tornar-se disforia, como se o travestismo fosse a causa da disforia. Acho curioso como não colocam a hipótese de, nestes casos, o travestismo poder ser um sintoma, não uma causa, de disforia de género. 

E só mesmo porque eu gosto de ser chato e mandar vir com estes pormenores:


Claro, porque os gays estão todos totalmente serenos com a possibilidade dos seus parceiros gostarem de usar roupa de mulher. Porque os gays são todos assim mente aberta, nada misóginos nem existe uma cultura de masculinidade tão tóxica como no resto da sociedade heteronormativa. Claro.

Bónus 2: Transtorno dismórfico corporal

Isto é algo que vejo a ser comparado e igualado à disforia com alguma frequência. Vamos olhar para os critérios de diagnóstico:


A razão pela qual pode parecer que as pessoas transsexuais encaixam dentro destes critérios é porque, para quem não é transsexual, as questões relacionadas com a imagem corporal (ou seja, com a disforia) não passam de obcessões com "partes do corpo saudáveis". No entanto, esta linha de pensamento só se mantém de pé enquanto não consideramos as pessoas transsexuais como pertencentes ao género a que declaram pertencer. Ou seja, por exemplo, a presença de mamas numa mulher não será algo interpretado como um defeito físico significativo, mas num homem sim. No entanto, enquanto as pessoas não virem um homem transsexual como homem, vão sempre pensar que se trata de uma mulher com problemas de imagem corporal. 

Ao longo do texto referente a esta secção, não é feito qualquer paralelismo ou sequer menção à disforia de género. 

Bónus 3: Homossexualidade

A homossexualidade constava no DSM até 1974, ano em que foi retirada do mesmo na re-edição do manual desse mesmo ano. Fui espreitar na última edição em que a homossexualidade aparecia listada: a segunda edição, editada em 1968. 

Nesse documento, a homossexualidade aparece categorizada como um "Desvio sexual", o que por sua vez se encontra dentro das "perturbações de personalidade e outras doenças mentais não-psicóticas" (tradução livre de "Personality disorders and certain other non-psychotic mental disorders"):



O documento não elabora mais do que isto, mas chega para ver que o que constava no manual sobre a homossexualidade não se compara ao que hoje em dia se pode ler em relação à disforia de género. Para ser diagnosticada com disforia de género, uma pessoa tem de ter a iniciativa de declarar o seu género e tem de existir sofrimento clinicamente relevante, que é o que vai ser diagnosticado e tratado. Ou seja, é um diagnóstico centrado no indivíduo que sofre de disforia e nas suas necessidades. 

Em contraste, o diagnóstico de homossexualidade centra-se em julgamentos morais daquilo que é considerado "atos sexuais (...) sob circunstâncias bizarras" e "comportamento sexual normal". 
on quinta-feira, 3 de março de 2016
Sinto que se passou uma eternidade desde a última vez que escrevi por aqui. Foram só (quase) dois meses, mas foram tão intensos e preenchidos com trabalho que tenho andado com a sensação que se passou meio ano desde a última vez que tive tempo para relaxar e escrever um bocado. Foram os últimos 2 meses de trabalho para a minha dissertação de mestrado, para a qual ando a trabalhar a sério desde setembro do ano passado. Tem sido uma experiência interessante, não só obviamente pela parte académica, mas também pelo facto de ser a primeira vez em que estou inserido num contexto em que ninguém sabe que sou trans.

Até ter começado este trabalho podia dizer que toda a gente que me conhecia sabia que eu era trans. Familiares, colegas de curso, amigos de infância, amigos de outros círculos, não era segredo para ninguém. Quando cheguei ao local onde iria desenvolver o trabalho para a dissertação, tinha tudo o que é documento já mudado, era socialmente visto como um rapaz, não via qualquer motivo para anunciar que era trans a nenhum dos meus colegas de trabalho. Portanto, não o fiz. E é estranho. Estou tão habituado ao facto de ser trans ser algo banal que me senti alienado e censurado por mim próprio em várias situações. Na língua inglesa existe o termo "stealth" para designar a condição de se ser trans sem que ninguém saiba, como se estivéssemos a "voar debaixo do radar" de deteção das pessoas. No entanto, tenho vindo a descobrir que poucas pessoas possuem tal "radar".

Ocorreram duas situações em que tive um pequeno deslize e acabei por dizer coisas que, achava eu, me iriam "denunciar", ou pelo menos fazer as pessoas suspeitar. O primeiro foi ter comentado que tinha, em tempos, tido cabelo comprido. Agora dito desta forma não parece grande coisa, há montes de homens com cabelo comprido, mas na altura dei uma importância demasiadamente grande a este lapso. Uns tempos mais tarde estava cheio de pressa para sair, tinha de apanhar o autocarro a tempo de apanhar o centro de saúde aberto para poder tratar da injeção das hormonas. Espera, eu disse isto alto e toda a gente ouviu? Oops.

Foram dois pequenos momentos de pânico, até me aperceber que ninguém fez qualquer tipo de ligação entre o que eu disse e a possibilidade de eu ser trans. Desde aí tenho andado a testar as águas, a tentar descobrir quanta informação é que consigo revelar às pessoas até elas dizerem alguma coisa. O que tenho descoberto é precisamente o oposto daquilo que eu pensava que ia acontecer: por muito que eu conte, ninguém suspeita de nada. 

Por esta altura os meus colegas de trabalho já sabem de tudo o que eu fiz durante a minha transição, só não sabem que foi num contexto de transição. Sabem que no passado as pessoas me confundiam com uma rapariga, em grande parte devido ao cabelo comprido que tinha na altura. Sabem que ando a fazer uma terapia hormonal porque o meu corpo não produz testosterona suficiente. Sabem que já tive mamas e que fiz uma mastectomia para as retirar. Sabem que vou fazer uma revisão à mastectomia nos próximos dias. Mas não sabem que sou trans, nunca juntaram as peças.

O que me está a causar estranheza (de uma forma... positiva, suponho?) é a forma como as pessoas reagem a estes pedaços de informação descontextualizada que lhes vou dando. Eu já tinha (e tenho) no passado falado com pessoas cis sobre as cirurgias e procedimentos clínicos que faço ou planeio fazer, explicitando que são num contexto de transição e de transexualidade. Na maioria dos casos, as reações são de estranheza, como se tudo relacionado com a transição fosse alienígena e extraordinário. Na melhor das hipóteses dizem-me que acham tudo isto muito complicado e difícil e dizem ter uma admiração enorme por as pessoas trans terem a coragem de fazer tudo isto e que nunca se imaginariam a passar pelo mesmo; na pior das hipóteses dizem que é tudo muito estranho, confuso e horrível.

Quando omito a parte da transexualidade, as reações são completamente diferentes. De todas as vezes que revelei algo, alguém dizia que tinha um amigo ou familiar (ou eles próprios) que tinha passado por algo semelhante. Uma tinha uma prima que teve um problema nos ovários quando era jovem e agora também toma hormonas para poder ter os níveis hormonais normais. Depois o amigo do outro teve um acidente que o deixou também assim com umas cicatrizes grandes no peito. E a outra ainda comentou que teve de retirar um tumor de uma das mamas e que o procedimento deve ter sido parecido com o meu; o meu foi só um bocado mais "radical", mas no fundo era tudo o mesmo. Subitamente, as pessoas afinal já têm referências às quais comparar aquilo que eu fiz durante a minha transição. Afinal, já não são coisas assim tão extraordinárias, são coisas que acontecem aos amigos, familiares, a nós próprios. Consigo falar com elas sobre a recuperação post-op, sobre os inconvenientes de tomar uma medicação durante toda a vida, sobre como lidar com cicatrizes visíveis - tudo sem receber expressões vazias acompanhadas de "pois, isso é tudo tão estranho, não faço ideia de como será". Subitamente já não me sinto como um "outro", um outlier.

É impressionante, e triste, a forma como a palavra "transexual" nos torna automatica e acriticamente objetos de estranheza com os quais nenhuma "pessoa normal" se consegue identificar. Na realidade, o que nós fazemos não é assim tão diferente. É mesmo uma pena as pessoas só o verem quando lhes omitimos a parte da transexualidade.

Tudo isto me faz pensar no grau de abertura que realmente quero ou não ter em relação à minha condição como pessoa transexual. Se por um lado gosto de ser aberto em relação a isto, confesso que a sensação de ser visto como um ser humano completamente "normal" (na perspetiva da sociedade, claro) e com quem as pessoas se conseguem identificar é extremamente agradável. Eu sempre tinha pensado que nunca conseguiria construir uma relação de amizade com alguém caso omitisse esta parte de quem sou, mas neste momento já não sei. A palavra "transexual" queima muitas pontes e eu já não sei se isso sempre vale a pena ou não.
on segunda-feira, 4 de janeiro de 2016
Este é o segundo post numa série sobre terapia hormonal com testosterona. No anterior foi dada uma introdução ao funcionamento geral das hormonas no nosso corpo. Aqui vamos ver de que forma é que conseguimos administrar essas hormonas no nosso corpo, opções de medicamentos e as diferenças entre eles.

(Este post acabou por ficar um bocado mais "nerd-ish" do que eu queria, mas prefiro assim do que "estupidificar" as explicações)

Mais uma vez quero reiterar que eu não sou médico nem farmacêutico e que a informação neste blog não deve ser usada em substituição de profissionais de saúde.


A maioria dos medicamentos que usamos na nossa terapia hormonal vêm na forma de ésteres de testosterona, portanto antes de partir para a testosterona propriamente dita, acho útil introduzir o conceito de "éster".


"Éster" é um nome usado na nomenclatura da química orgânica para designar uma molécula que resulta da condensação (junção) de um álcool e de um ácido carboxílico.


Neste esquema, o R1 e R2 representam outro grupo molecular que contenha um átomo de carbono  -ou seja, outra molécula qualquer. Existem vários ésteres diferentes - cipionato, enantato, undecanoato, etc - com tamanhos diferentes.

Para o propósito deste post, R1 ou R2 será uma molécula de testosterona, ou seja, adiciona-se uma molécula de testosterona num dos locais do éster. Isto vai fazer com que o resultado final seja uma molécula de testosterona com uma "cauda" de éster lá pegada. 
O objetivo deste processo é tornar a testosterona solúvel em óleo e assim abrandar a taxa de libertação da testosterona para a corrente sanguínea - existem formulações de testosterona em água em vez de óleo, mas duram muito pouco tempo, apenas algumas horas, e teríamos de fazer injeções diárias para manter níveis de testosterona constantes ao longo do tempo. Regra geral, quanto mais longo é o éster que está "pegado" à molécula de testosterona, mais solúvel esta é em óleo. Em simultâneo, quanto mais longo é o éster, menos solúvel em água a molécula se torna. O nosso sangue é, em termos simples, uma solução aquosa, daí podemos concluir que quanto mais longo é o éster, mais lentamente este vai entrar na corrente sanguínea. 

Na prática, isto tem duas implicações:
1) quanto mais longo for éster, mais tempo a testosterona demora a entrar na corrente sanguínea, o que significa que o intervalo entre as injeções pode ser maior;
2) quanto mais curto for o éster, mais rapidamente entra na corrente sanguínea, o que vai gerar um "pico" alto de testosterona logo após a injeção.

O que acontece quando fazemos uma injeção intramuscular de algum medicamento com ésteres de testosterona é a criação de um pequeno "depósito" oleoso dentro do músculo. Ao longo do tempo, o músculo está em contacto com o sangue (através dos vasos sanguíneos) e, ao passar pelo depósito oleoso, o sangue vai "resgatar" algumas das moléculas (testosterona+éster) e traze-las para a corrente sanguínea. Já no sangue, existem proteínas que vão "cortar" a cauda de éster, libertando a molécula de testosterona, que fica livre para ir provocar todos os efeitos que normalmente provoca no corpo humano. A velocidade a que isto acontece está dependente, principalmente, do tamanho do éster. 


Vias de Administração
Existem vários métodos para introduzir testosterona no nosso corpo. 

O mais comum costuma ser por via intramuscular injetável
Como foi descrito acima, este método consiste em criar um depósito de testosterona dentro de um músculo, que é então lentamente libertada ao longo do tempo. Normalmente a injeção é dada num músculo grande, no glúteo ou na coxa. A principal vantagem desta via é o facto de evitar a passagem da testosterona pelo fígado, prevenindo assim as complicações que podem surgir relacionadas com esse órgão. No entanto, tem a desvantagem de... bem, de ser uma injeção. Para quem tem aversão a agulhas pode ser um problema, principalmente se houver a perspetiva de continuar o tratamento durante meses ou anos. Também existe o problema de serem criados "picos" e "vales" na quantidade de testosterona. Ou seja, pouco tempo após uma injeção os níveis de testosterona "disparam" para quantidades elevadas, e pouco tempo antes da injeção seguinte há o risco de os níveis estarem muito baixos. Idealmente, o intervalo entre as injeções será o adequado para que os vales não sejam muito baixos, mas que os picos também não sejam exagerados. 

O segundo método mais comum é por via transdérmica, ou seja, testosterona em gel, creme ou pensos.
Nestes casos, a testosterona encontra-se no estado livre, sem ésteres associados. Por causa disto, a testosterona é rapidamente libertada e é preciso aplicar o gel/creme/penso todos os dias. Normalmente o gel/creme/penso tem de ser aplicado em zonas específicas do corpo e é preciso ter cuidado de forma a não transmitir o gel ou creme a outras pessoas ou animais através de contacto físico. Existe também o problema de poderem ocorrer reações alérgicas aos pensos, principalmente em quem tem peles mais sensíveis. 
Uma vantagem é o facto de se evitar os picos e vales associados às injeções, sendo possível manter uma dose mais estável ao longo do tempo (assumindo que a pessoa aplica o gel/creme/penso todos os dias à mesma hora).

Existe também a via oral, que é menos comum devido à toxicidade que causa ao fígado.

Uma nota importante sobre a forma como cada pessoa toma a sua medicação: não existe um "valor padrão" que é o correto para toda a gente. Existem posologias mais comuns (ex: é bastante comum ver pessoas a fazer uma injeção de 250mg de testosterona a cada 3 semanas) mas tal não significa que seja essa a forma ideal para toda a gente. Se estiverem a fazer a vossa terapia hormonal de forma diferente, não se preocupem demasiado. O importante é fazerem análises periódicas e verificarem que os vossos níveis estão dentro daquilo que é suposto - algo que o vosso médico vos dirá. 


Vamos então olhar para os medicamentos atualmente disponíveis cá em Portugal. Uma pesquisa por "testosterona" no site da Infarmed devolve-nos 7 medicamentos que contêm testosterona:

Andriol-T
Cápsulas moles de undecanoato de testosterona.

Este medicamento não está a ser comercializado em Portugal neste momento, nem eu me recordo de ver muitas menções ao mesmo por homens trans em outros países. Formulações orais de testosterona costumam ter uma "má reputação" por serem bastante agressivas para o fígado. Este medicamento em particular contém undecanoato de testosterona e é, em teoria, absorvido no intestino delgado, o que evitaria os efeitos negativos para o fígado. No entanto, tem a desvantagem de ser rapidamente absorvido, o que significa que teríamos de tomar múltiplas cápsulas por dia (o que foi explicado acima sobre ésteres não se aplica neste caso, uma vez que a via de administração não é intra-muscular, mas sim oral).

Testim
Testosterona em gel.

Este medicamento parece ser a única formulação em gel de testosterona à venda em Portugal de momento. Neste caso, a testosterona não está ligada a nenhum éster, encontrando-se no gel já na forma livre. Isto significa que rapidamente toda a testosterona é absorvida e usada, sendo essa a razão pela qual o gel tem de ser aplicado diariamente. Além disso, apesar de cada bisnaga conter 50mg de testosterona, apenas cerca de 10% é absorvida pela pele, resultando numa entrega de 5mg de testosterona por dia.

Este tipo de medicamento normalmente é preferido por quem tem aversão a agulhas (uma vez que a outra alternativa é testosterona injetável), mas tem a desvantagem de ser muito mais caro. Há também quem se sinta incomodado por ter de aplicar o gel todos os dias e ter de lidar com os cuidados associados ao mesmo (ex: ter cuidado para não passar gel para outras pessoas através de contacto físico). 

Um mito que vejo regularmente em relação ao gel é a ideia de que os efeitos da testosterona vão ser mais rápidos nas zonas onde o gel é aplicado (por exemplo, se aplicar o gel no braço esquerdo vão crescer lá mais pêlos do que no braço direito). Isto por vezes leva as pessoas a achar que é boa ideia aplica-lo na cara para acelerar o aparecimento de barba. Isto não é uma boa ideia! A testosterona só exerce os seus efeitos quando entra na corrente sanguínea, e quando tal acontece fica disponível por onde quer que seja que o sangue passe - ou seja, no corpo todo. Não interessa onde é que o gel é aplicado, eventualmente a testosterona vai chegar a todas as partes do corpo. Aplica-lo na cara não serve de nada (e pode ser uma má ideia, uma vez que o gel contém álcool, não sendo muito recomendável aplicar diariamente álcool na cara...).

Testogel e Androgel

Estes dois medicamentos são também formulações em gel. Tudo o que foi dito em relação ao Testim aplica-se a estes dois. No entanto, ao contrário do Testim, estes não se encontram de momento a ser vendidos em Portugal.

Nebido
Undecanoato de testosterona injetável.

O undecanoato é um dos ésteres mais longos que se pode encontrar na medicação com testosterona. Por essa razão, este medicamento só precisa de ser administrado entre 10 em 10 ou 12 em 12 semanas. 
Molécula de undecanoato de testosterona

O comprimento deste éster faz com que não só dure imenso tempo, mas também que o "pico" de testosterona logo depois da injeção não seja tão alto como no caso de outros injetáveis. Ou seja, o Nebido provoca níveis de testosterona estáveis durante quase 3 meses com apenas uma injeção. A desvantagem? É caro. Além disso, a ideia de levar com uma injeção intramuscular de 4mL pode ser intimidante para algumas pessoas. 


Testoviron Depot
Enantato de testosterona injetável.

O enantato é um éster mais curto em relação ao undecanoato, mas é longo o suficiente para durar bastante tempo.
Molécula de enantato de testosterona
Após a injeção, ocorre um "pico" de testosterona, que vai sendo então libertada ao longo de 2 a 4 semanas (consoante a pessoa). Em conjunto com o Sustenon, este medicamento parece ser dos mais comuns cá em Portugal. 

Sustenon
Mistura de 4 ésteres de testosterona injetável.

O sustenon contém propionato, fenilpropionato, isocaproato e decanoato de testosterona. Cada um destes ésteres tem tamanhos diferentes, o que deveria, em teoria, dar origem a diferentes taxas de libertação e assim estabilizar os níveis de testosterona ao longo do tempo. Na prática, este medicamento é usado exatamente da mesma forma que o Testoviron: uma injeção a cada 2-4 semanas. Nunca vi mencionada qualquer diferença entre a utilização e efeitos de Sustenon e Testoviron, havendo até quem os utilize indiferenciadamente. 

on quinta-feira, 22 de outubro de 2015
Antes de começar: quero frisar que eu não sou médico e não tenho formação em medicina. A informação aqui contida deve ser usada apenas para fins educacionais e nunca em substituição de consultas com médicos qualificados. Se tiverem qualquer dúvida clínica, perguntem ao vosso médico. 

Dito isto, gostava de partilhar um bocado da informação que fui acumulando sobre e terapia hormonal com testosterona e sobre hormonas em geral. 

Começando pelo básico - o que é uma hormona? 
Uma hormona é uma molécula sinalizadora, ou seja, serve para transportar sinais pelo corpo. As hormonas são produzidas por glândulas e viajam através do sistema circulatório (veias e artérias) até ao local onde têm de deixar a sua mensagem. 
Exemplos de glândulas que produzem hormonas incluem: tiróide, hipófise, glândulas suprarrenais e gónadas (testículos ou ovários). 

Existem imensos tipos de hormonas diferentes e que regulam imensos fenómenos, entre os quais: metabolismo, crescimento, sono, humor, reprodução, etc. O conjunto de todas as hormonas e das glândulas que as secretam é conhecido como o sistema endócrino.

Mas como é que as hormonas sabem onde é que têm de entregar as suas mensagens? 
Cada hormona tem um tipo de recetor específico e que só existe em locais específicos do corpo. Esses recetores são moléculas que se encontram, normalmente, na superfície das células. Quando uma hormona se liga a um recetor, vai desencadear uma série de mudanças na célula que culminam em algum tipo de efeito a curto, médio ou longo prazo. As hormonas só podem fazer os seus efeitos se se ligarem aos recetores adequados - ou seja, se esses recetores por alguma razão estiverem todos ocupados, indisponíveis ou ausentes, as hormonas não fazem efeito nenhum. 

Ilustração da interação hormona-recetor


Há hormonas que se podem ligar a recetores diferentes, e há recetores que podem reconhecer diferentes hormonas. No entanto, os efeitos em cada caso podem ser diferentes. Por exemplo, se a hormona "A" se ligar ao recetor "1" pode induzir efeitos diferentes caso a mesma hormona se ligasse ao recetor "2". Da mesma forma, se o recetor "1" receber a hormona "A" vai causar efeitos diferentes de que se tivesse recebido a hormona "B". Existem imensas hormonas e imensos recetores diferentes, pelo que a combinação de diferentes hormonas com diferentes recetores dá origem a um número enorme de interações e efeitos induzidos pelas hormonas. 

A especificidade das hormonas e recetores é mediada, principalmente, pela forma e geometria, embora possa haver alguma adaptação e variação.


E como é que o corpo sabe que hormonas é que tem de produzir?
O nosso corpo tem sistemas de auto-regulação hormonal, a maioria funciona como um mecanismo de feedback negativo. Pensem neste mecanismo como a regulação de uma torneira quando estão a tomar banho: se se sentirem a escaldar, desligam um bocado a torneira da água quente. Quando começam a sentir frio, ligam a quente até estarem confortáveis com a temperatura do vosso chuveiro.

Ou seja, quando o corpo deteta que tem quantidades de hormona "A" a mais, deixa de a produzir (ou produz níveis mais baixos). Da mesma forma, se detetar que não há hormona "A" suficiente no sangue, começa a produzir mais. As formas como o corpo deteta os níveis hormonais são complexas e não completamente compreendidas atualmente, mas sabe-se que funcionam e que nos mantêm saudáveis (na ausência de condições patológicas, claro). 

Testosterona e Estrogénio - Esteróides Sexuais
Esteróides sexuais são as hormonas que interagem com recetores de androgénios ou estrogénios. Incluem os androgéneos, estrogénios e progestágenos. Dessas, as mais "famosas" são, respetivamente, a testosterona, o estradiol e a progesterona. Estas hormonas são produzidas, principalmente, nos gónadas (testículos ou ovários), mas também são produzidas em menores quantidades nas glândulas suprerrenais, tecido adiposo, fígado e em outros tecidos. 

Uma nota sobre esteróides: muita gente parece ficar alarmada quando ouve dizer que a testosterona e o estrogénio são esteróides. Existe algum estigma em relação a esta palavra por causa das notícias que reportam o abuso de esteróides por atletas. Na realidade, "hormona esteróide" significa apenas que é uma hormona que é fabricada a partir do colesterol. Outros exemplos de hormonas esteróides são os glicocorticóides (participam na regulação do sistema imunitário) ou a aldosterona (contribui para o bom funcionamento dos rins). 

Comparação entre as moléculas de colesterol, testosterona e estradiol.Como podem ver, são bastante parecidas entre elas


Apesar de se dizer que a testosterona é a "hormona masculina" e que o estradiol é a "hormona feminina", toda a gente produz alguma quantidade de ambas as hormonas. A proporção entre uma e outra é que acaba por ser bastante diferente de acordo com o tipo de gónadas que uma pessoa tem. Aquando da puberdade, uma pessoa vai começar a produzir testosterona ou estradiol em maiores quantidades conforme tenha testículos ou ovários, respetivamente.

Um ponto importante sobre estas hormonas é o facto de toda a gente, independente do sexo, ter recetores para ambas as hormonas no seu corpo.

O Papel dos Esteróides Sexuais
Os esteróides sexuais têm um papel crucial no desenvolvimento das características sexuais secundárias de uma pessoa. 

Características sexuais secundárias são características que se desenvolvem a partir da puberdade devido ao efeito dos esteróides sexuais. No entanto, não têm nenhum papel direto na reprodução. Exemplos incluem: crescimento de pêlo facial ou corporal, mamas, o timbre da voz, o padrão de distribuição da gordura corporal, etc. 

Características sexuais primárias são aquelas que estão presentes desde a nascença, desenvolvem-se mais na puberdade e intervêm diretamente na reprodução. Basicamente, são os órgãos genitais externos e os gónadas (e todas as estruturas associadas aos mesmos). 

Durante a puberdade, os androgénios vão induzir mudanças como o aumento da pilosidade facial e corporal, o abaixamento do timbre da voz, desenvolvimento da massa muscular, etc. Ou seja, características geralmente associadas ao sexo masculino.

Por sua vez, os estrogénios vão causar o crescimento de mamas, o início do ciclo menstrual (se a pessoa tiver os órgãos internos necessários para que tal aconteça) e todas as características geralmente associadas ao sexo feminino. 

Como é que o corpo decide se deve produzir mais testosterona ou estradiol?
Como já referido, estas hormonas são produzidas nos gónadas. No entanto, não são os gónadas que "decidem" em relação à quantidade de hormonas que o corpo produz. A regulação destas hormonas é um trabalho de equipa entre os gónadas e o hipotálamo. 

O hipotálamo é uma região do cérebro que é extremamente importante na regulação hormonal - não só das hormonas sexuais. A temperatura corporal, fome, sede ou sono são tudo coisas controladas pelo hipotálamo. É uma ponte de ligação entre o sistema nervoso e o sistema endócrino.



Localização do hipotálamo. Imagem roubada daqui » http://brainmadesimple.com/hypothalamus.html

Quando o hipotálamo deteta níveis baixos de testosterona ou estrogénio no sangue, liberta uma hormona chamada Gonadotropin-releasing hormone (GnRH), que viaja até à hipófise (uma glândula que fica muito perto do hipotálamo). Esta hormona tem como função, tal como o seu nome sugere, estimular a libertação de gonadotropinas. 

Existem duas gonadotropinas: hormona luteinizante (LH) e a hormona folículo-estimulante (FSH, do inglês Follicle-stimulating hormone). Tanto a LH como a FSH são produzidas na hipófise e viajam até aos gónadas. Lá, a FH estimula a produção de testosterona ou estrogénio (conforme a pessoa tenha testículos ou ovários, respetivamente). A FSH promove a iniciação da maturação dos gâmetas (espermatozóides ou ovócitos).

No caso contrário, caso o hipotálamo detete níveis elevados de testosterona ou estrogénio, inibe a libertação de GnRH, o que por sua vez vai inibir a libertação de LH e FSH para o sangue, diminuindo assim a produção de testosterona ou estrogénio. 

(1) os gónadas produzem pouca testosterona ou estrogénio
(2) o hipotálamo, em resposta aos níveis hormonais baixos, produz GnRH, que é enviado para a hipófise
(3) a hipófise liberta LH e FSH para a corrente sanguínea
(4) a produção de testosterona ou estrogénio é aumentada 


E como é que isto tudo interage com a terapia hormonal com testosterona?
Durante a terapia hormonal com testosterona, estamos a introduzir testosterona no nosso corpo. Isto, por si só, vai causar o desenvolvimento das características sexuais secundárias. Como dito anteriormente, todas as pessoas têm recetores para todas as hormonas, daí a testosterona conseguir exercer os seus efeitos num corpo que, naturalmente, teria níveis de testosterona muito mais baixos. 

As mudanças induzidas pelas hormonas podem acontecer a curto, médio ou longo prazo. Por exemplo, um dos efeitos da testosterona é a estimulação dos folículos pilosos (responsáveis pelo crescimento de pêlo). Isto, normalmente, demora bastante tempo (meses ou anos) porque acontece pela mudança da expressão genética das células dos folículos, e tudo o que envolva mudar a forma como os nossos genes se comportam demora bastante tempo. 

Algo importante a considerar é o facto de existir um número limitado de recetores hormonais no nosso corpo. Se houver mais moléculas de testosterona do que recetores, as moléculas extra não estão lá a fazer nada, porque não têm forma de se ligar a lado nenhum. Isto significa que existe um ponto a partir do qual não adianta aumentar a dose da medicação que tomamos na nossa terapia hormonal. Os efeitos das hormonas e o timming com que aparecem não é algo estritamente linear. 

Aliás, a partir de certo ponto pode ser contraproducente aumentar a quantidade de testosterona que introduzimos no nosso corpo, uma vez que parte dela pode ser convertida de volta a estrogénio. Este é outro mecanismo de regulação hormonal que o nosso corpo pode accionar caso detete níveis demasiado elevados de testosterona. Existe uma molécula chamada aromatase que é importante para a síntese de estradiol. Essa molécula pega numa molécula de testosterona e transforma-a em estradiol. Portanto, ao achar que estamos a aumentar o nosso nível de testosterona, podemos estar é a aumentar o nível de estradiol.

Mecanismo geral da conversão de testosterona em estradiol. Imagem roubada da Wikipédia.


Ao fim de algum tempo da terapia hormonal, o equilíbrio hormonal no nosso corpo começa a mudar e o hipotálamo começa a aperceber-se de que já existe uma quantidade considerável de esteróides sexuais em circulação. Isto vai desencadear o processo de feedback negativo descrito acima, a produção de GnRH vai diminuir, o que por sua vez vai culminar numa diminuição da produção de estrogénio e na interrupção do ciclo menstrual. Isto costuma acontecer dentro dos primeiros 6 meses da terapia hormonal (mas este prazo pode variar consoante a pessoa). 

Uma nota/curiosidade em relação à regulação do mecanismo de feedback: cá em Portugal, tanto quanto sei, ainda não se usam os chamados "bloqueadores de puberdade". Estes são compostos que podem ser dados a uma pessoa que ainda não tenha entrado (ou que esteja ainda nas fases iniciais) na puberdade. O que essa medicação faz é bloquear os recetores de GnRH de forma a que a hipófise não receba esse sinal e nunca produza as gonadotropinas, o que por sua vez vai inibir a produção dos esteróides sexuais e assim atrasar o início da puberdade. Daí esses compostos também serem conhecidos como "bloqueadores de GnRH" ou "análogos de GnRH".

Fica aqui as bases para começar a compreender melhor o funcionamento da terapia hormonal com testosterona (ou com estrogénio! Os princípios básicos aplicam-se na mesma, embora existam algumas diferenças; poderá ser algo a explorar neste blog no futuro). Num post futuro vou continuar a elaborar mais sobre os efeitos da testosterona e sobre os tipos de medicação usados mais frequentemente.
on quinta-feira, 24 de setembro de 2015
Caríssimxs humoristas-wannabe,

É com desagrado (mas, infelizmente, sem surpresa) que vejo que ainda se aproveitam de plataformas mediáticas e do disfarce do "humor" para perpetuar ideias discriminatórias e difundir preconceitos. Este fenómeno é algo ainda relativamente raro cá em Portugal (devido, creio, à falta de visibilidade das pessoas transsexuais no país) mas depois de ver uma peça de "humor" sobre o assunto (nem me vou dignar a mencionar exatamente onde, não vos quero dar audiência) não consegui permanecer silencioso.

A peça desenvolvia-se à volta de uma entrevista de uma suposta mulher transsexual, tendo como ponto de partida a situação da Caitlyn Jenner. Invariavelmente, e mesmo sendo uma entrevista fictícia, a coisa focou-se nas operações e na tentativa de retratar a mulher como super-masculina - um homem disfarçado. 

Pode parecer inofensivo atacar uma Caitlyn Jenner - uma mulher rica, famosa, num local onde os comediantes de meia-tigela não se ouvem. Mas nós, a grande maioria das pessoas trans, não somos a Caitlyn Jenner. Não estamos imunes às consequências que este tipo de mensagens passam à população. Somos pessoas que, demasiadas vezes, somos despedidas dos nossos empregos (se os conseguirmos arranjar de todo), abandonadas pelas nossas famílias e ignoradas pelos sistemas de saúde. Há quem se vá safando, hoje em dia são cada vez mais as histórias com finais felizes, mas não deixamos de ser uma população com elevadíssimas taxas de tentativas de suicídio, com alta incidência de depressões, discriminações e - sim - alvos fáceis para piadolas parvas. 

Não é preciso muito trabalho, inteligência ou originalidade para fazer piadas à nossa custa e para transformar as nossas vulnerabilidades em punch-lines. Ninguém quer saber se ofendem "os travecos", se fazem pouco da mulher com voz grave ou se se aproveitam das reações de nojo das pessoas quando confrontadas com as "operações de mudança de sexo". Ninguém quer saber. Mesmo quando são chamados à atenção chovem "justificações": é sátira, não sejam tão sensíveis, é só um bocado de humor!

Isso não é humor, é bullying. 

Fazer piadas que perpetuam o status quo de discriminação de um grupo de pessoas extremamente vulneráveis repetindo os mesmos mantras preconceituosos de sempre não passa de bullying, e quem o faz não passam de pessoas que apenas se deram ao trabalho de encontrar uma presa fácil sem pensar duas vezes nas pessoas que realmente podem estar a afetar.

Ninguém está a salvo do humor, é um facto. Nem estou a defender que não se deva fazer humor à volta das pessoas transsexuais. No entanto, há formas inteligentes de o fazer. É possível fazer humor à volta deste tema sem ser um idiota completo - aliás, é algo que eu tento incorporar no meu ativismo ou até mesmo em momentos mais pessoais, entre amigos e familiares. Eu sou um fã enorme do humor, tanto como entretenimento puro como como forma de intervenção social. Eu adoro fazer piadas comigo próprio, apontar absurdidades do processo de transição ou simplesmente rir-me de situações mais graves como forma de lidar com as coisas. 

O humor pode ser uma ferramenta extremamente útil para a mudança de mentalidades. Ou, no mínimo, pode não ajudar a deitar abaixo um setor da população que já se encontra no fundo da hierarquia social. Tem é de ser bem feito e minimamente inteligente. 

Só para deixar um exemplo:




É possível fazer peças humorísticas que façam as pessoas pensar e questionar. O humor não tem de se ficar pelas gargalhadas vazias, e custa-me ve-lo a ser usado como justificação e meio de perpetuação de ideias que afetam de forma tão negativa as pessoas transsexuais (ou qualquer outra população que calhe de ser o alvo da piada do dia). Eu não gostava de ver o humor à volta das pessoas trans desaparecer, gostava era de não o ver a tornar-se em mais um veículo para a discriminação. Recuso-me a aceitar standards tão baixos ao ponto de considerar um discurso de ódio e ridícularização transfóbica como humor a sério. 

Ao reciclar piadas que reforçam ideias preconceituosas, só vão estar a entreter e a validar pessoas preconceituosas. Eu entretanto fico a aguardar pelo dia em que se torne comum fazer piadas à custa de pessoas e de pseudo-humoristas transfóbicos.