on segunda-feira, 28 de novembro de 2016
Faz hoje dois anos desde que iniciei a terapia hormonal com testosterona. Há imensa coisa que poderia escrever sobre o assunto, e eventualmente irei escrever, mas não hoje, que já se faz tarde. Portanto, deixo aqui apenas algumas das perguntas mais frequentes que as pessoas me fazem em relação à terapia hormonal.


Quanto tempo é que demoraste para começar a tomar testosterona?
Pouco menos de um ano após ter iniciado as consultas para as avaliações psicológicas. A certa altura já tinha terminado as avaliações, mas tive de esperar mais de meio ano na fila de espera para a consulta de endocrinologia! Tivesse eu dinheiro para ir ao privado, teria começado uns meses mais cedo.


É possivel arranjar testosterona sem ir a essas consultas?
Sim, mas não o recomendo. É importante haver uma monitorização periódica do estado da nossa saúde de forma a evitar problemas que possam surgir. 

Como é que arranjo isso sem médicos, então?
Não sei. Sei que é possível porque já vi outras pessoas a faze-lo, mas eu sempre fiz tudo pelas "regras" e portanto não tenho informação sobre o assunto.

Só dá para tomar isso com injeções?
Não, há comprimidos (péssimos para o fígado) e gel (muito caro). Quando tiver dinheiro suficiente talvez mude para o gel porque sou um mariquinhas com medo de agulhas.

A testosterona não te deixa agressivo?
Não, continuo a mesma pessoa calma que era antes da terapia hormonal. Por vezes sinto-me mais impaciente, mas mesmo aí não reajo com agressividade. Este mito vem do fenómeno da "roid rage" que acontece com algumas pessoas (homens cis) que abusam de esteróides anabolizantes (entre os quais a testosterona) para ganhar músculo mais facilmente. No entanto, a dose que o pessoal trans toma é completamente diferente das doses que o pessoal dos ginásios faz nos seus ciclos.

Isso ajuda-te a crescer mais músculos?
Sim, ajuda um bocado, embora não seja esse o motivo pelo qual faço a terapia hormonal. E, adiantando-me à pergunta seguinte: não, não te arranjo disto para ganhares músculo no gym.

Cresceste em altura?
Não.

Nem ficaste com os pés ou as mãos maiores?
Nope.  Eu meço exatamente o mesmo e todos os sapatos e luvas ainda me servem. 

E a maçã de adão, cresceu?
Sim, essa sim, juntamente com as mudanças na voz. 

Há alguma mudança que não gostes?
Sim, o aumento do acne e o cheiro do suor.

Arrependes-te de alguma coisa em relação às hormonas?
Não.


Algumas notas e pensamentos que me foram passando pela cabeça ao longo dos últimos 2 anos:
  • tomar medicação injetável não é tão mau como estava à espera, mas mesmo assim não me consigo livrar da ansiedade imediatamente antes de a agulha me perfurar a pele;
  • tentar fazer conversa com a enfermeira quando tens uma agulha espetada no rabo não diminui o constrangimento da situação;
  • acne nos ombros e binders é uma combinação preparada pelo demónio;
  • assim como é também a combinação de acne na cara e pêlo facial;
  • epah, acne em geral. F*ck that;
  • os desodorizantes masculinos funcionam bem melhor que desodorizantes femininos;
  • durante o primeiro ano-e-tal, não, não andava rouco nem afónico, simplesmente ainda não tinha aprendido a usar direito as minhas cordas vocais;
  • ter a líbido aumentada nos primeiros meses não foi remotamente tão divertido como estava à espera; felizmente entretanto a coisa acalmou;
  • pela enésima vez: caros amigos gajos, não, vocês não vão ficar com mais barba nem com a voz mais grossa se tomarem a minha medicação; se acharem mesmo que têm algum problema hormonal, vão ao médico;
  • sim, posso vir a sofrer de calvice, tal como qualquer outro homem; não me lembrem disso, sff ;_;
  • fazer uma posologia ligeiramente diferente da maioria das outras pessoas não tem mal nenhum, as mudanças acontecem na mesma;
  • a testosterona não mudou a minha personalidade, mas sinto influencia a forma como reajo a emoções fortes (positivas ou negativas). As reações iniciais parecem ser mais intensas, mas também consigo voltar a uma "baseline emocional" com maior facilidade;
  • por vezes só dá para perceber que as mudanças estão a acontecer porque as outras pessoas (que já não nos vêm há algum tempo) as apontam;
  • ou então quando me ponho a olhar para fotografias; fotografar as mudanças foi das melhores ideias que já tive no contexto da transição!
on quarta-feira, 12 de outubro de 2016
Há alguns meses atrás o Bloco de Esquerda apresentou uma proposta de lei para substituir a atual (única e primeira) lei de identidade de género. Ando desde então para lê-la com atenção e formar uma opinião, mas só agora que o PAN fez o mesmo é que decidi meter mãos à obra mais a sério. Tencionava falar sobre ambas as propostas num únco post, mas depois o texto começou a ficar demasiado extenso, portanto vou dividi-lo em dois posts, um para cada proposta. O "selling point" dessas propostas centra-se na garantia da autodeterminação de género para as pessoas trans - ou seja, na possibilidade de uma pessoa poder mudar de nome e marcador de sexo nos seus documentos sem para isso ter de apresentar qualquer diagnóstico de disforia, de perturbação de identidade ou do que mais lhe quiserem chamar. 


Eu sou da opinião que as pessoas trans deveriam poder autodeterminar o seu género e vê-lo reconhecido pelo estado sem qualquer intervenção ou autorização de terceiros, incluindo de quaisquer profissionais de saúde. O processo clínico deveria estar completamente divorciado do processo legal de transição e, da mesma forma que o acesso aos cuidados de saúde não está dependente da mudança de nome e sexo nos documentos, a mudança de nome e sexo nos documentos não deveria estar dependente do estado do nosso processo clínico. A lei atual quase que consegue atingir este ideal, não colocando qualquer requisito relacionado com a transição física: não exige nenhuma cirurgia ou tratamento hormonal. O que exige é um relatório clínico que comprove que foi feito um diagnóstico de disforia de género/perturbação de identidade de género. 

Dito isto, torna-se óbvio que encaro estas propostas de lei como positivas, mas não posso deixar de fazer uma análise crítica às mesmas. 

Começando então pelo texto introdutório da proposta do BE.

Ao longo do texto referem várias vezes não só a questão da identidade de género, mas também a de expressão de género. Coloco em causa a relevância da menção às questões relacionadas com a expressão de género, quando tal é irrelevante na definição da identidade de uma pessoa. O facto de uma pessoa ter uma expressão diferente da norma não faz dessa pessoa trans, ao contrário do que o texto parece sugerir. É certo que existe muita discriminação direcionada às pessoas cuja aparência difere daquilo que está estabelecido como sendo a "aparência correta" para um determinado género, mas isso é um problema separado do problema da autodeterminação (da identidade) de género.

Mencionam também identidades de género não binárias sem, no entanto, as incluirem na lei per se, uma vez que a lei contempla apenas mudanças do marcador de género de F para M ou vice-versa. 

A certa altura durante o texto citam várias entidades de forma a construir o argumento de que as pessoas trans não devem ser obrigadas a submeter-se a qualquer intervenção física (cirúrgica e/ou farmacêutica) para que lhes seja reconhecido oficialmente o seu género. Fica incerto o motivo deste argumento nesta proposta de lei, uma vez que a lei atual já permite que mudemos o nosso nome e marcador de sexo sem qualquer intervenção física. A única citação que faz sentido neste contexto é a última, que menciona os diagnósticos de saúde mental como requisitos abusivos para a mudança de nome e sexo.

Ainda sobre intervenções clínicas, o BE diz que esta lei pretende garantir o acesso aos cuidados de saúde para as pessoas trans que dele necessitem. O acesso aos cuidados de saúde, através do SNS, no âmbito de uma transição já estão, em teoria, assegurados. Isto inclui consultas de várias especialidades, tratamentos farmacológicos e cirúrgicos e, na falta de resposta do SNS, o acesso aos cheques-cirurgia. Isto tudo não é novo, já existe e já se aplica a nós. Em teoria. Na prática, as coisas funcionam muito mal. Não creio que será com uma lei (qualquer lei que seja) que as coisas subitamente comecem a funcionar corretamente. A intenção parece ser boa, mas fútil (até porque não dizem de que forma pretendem assegurar o acesso a estes cuidados de saúde). 

Vamos então olhar para a proposta de lei propriamente dita.

Esta proposta mantém a confidencialidade do processo e assegura que a mudança não pode ser mencionada no novo asento de nascimento da pessoa (artigo 6º, ponto 5). A lei atual refere apenas que "Este procedimento tem natureza secreta." (artigo 1º, ponto 2), enquanto que esta proposta diz que "Este procedimento tem natureza confidencial, exceto a pedido do requerente, dos seus herdeiros e das autoridades judiciais ou policiais para efeitos de investigação ou instrução criminal." (artigo 1º, ponto 2). Também à semelhança da lei atual, a proposta do BE coloca um prazo máximo de resposta em 8 dias a contar do dia em que o pedido de mudança de nome e sexo é feito (artigo 7º ponto 1).

No artigo 3º, ponto 1, alínea a, referem que uma pessoa deve ter o direito ao reconhecimento da sua expressão de género, sem tornar claro o que é que isto significa. Compreendo o direito ao reconhecimento da identidade, mas o que é que significa "reconhecer uma expressão" do que quer que seja? No mesmo artigo e ponto, na alínea seguinte, dizem que uma pessoa deve ter o direito a ser tratada de acordo com a sua (identidade e/ou) expressão de género, o que mais uma vez me faz questionar exatamente o que é que isto significa e se não seria mais adequado referir apenas a identidade. Identidade e expressão de género são coisas distintas. Estar a colapsa-las desta forma não me parece de forma alguma útil ou sequer lógico. Idem aspas para a alínea seguinte desse ponto e artigo.

No artigo 4º parece haver uma contradição: dizem que não se pode exigir a uma pessoa nenhum "exame psicológico que limite a sua autodeterminação de género", mas uma pessoa não se pode mostrar "interdita ou inabilitada por anomalia psíquica" para poder mudar de nome. Eu entendo o que é que estão a tentar dizer com isto (não deve ser exigido nenhum diagnóstico para mudar o nome), mas parece-me que se cria aqui um pequeno loop suscetível a más interpretações (ou más vontades) pelos funcionários das conservatórias. Porque é preciso garantir que a pessoa não esteja inabilitada por alguma anomalia psíquica, será então legítimo pedir à pessoa algum tipo de relatório clínico que comprove precisamente isso. No entanto, poderá isso ser considerado como um "exame psicológico que limite a sua autodeterminação de género" ou não?
(13.10.2016 edit: uma pessoa que percebe bem mais do que eu no que toca a estes assuntos disse: "a interdição e inabilitaçao sao decretadas por um tribunal, pelo que não será necessário mostrar qualquer diagnóstico momento do registo. Entendo a preocupação, mas a inabilitação e interdição são figuras gerais para remover ou limitar a capacidade juridica das pessoas, nomeadamente em consequencia de patologia mental que limite a sua capacidade de se auto-reger.")

Ainda no mesmo artigo, extendem a lei a menores de 18 anos, o que é uma melhoria enorme em relação à lei atual. Menores de 16 (artigo 5º) terão de ter autorização de um guardião legal ou, caso este não colabore, poderão intentar uma ação judicial. Como é que um menor de 16 anos conseguirá fazer tal coisa é uma questão pertinente.

No artigo 9º estabelecem que qualquer instituição, pública ou privada, tem obrigação de emitir documentos ou diplomas com o nome e sexo corrigidos sem custos adicionais para a pessoa. Os casos em qua alguma instituição se recusa a atualizar os documentos não são muito comuns, mas mesmo assim existem, portanto a inclusão deste artigo é bastante positiva.

Os artigos 11º  e 13º e 14º estão cheios de boas intenções, mas temo que tentem resolver problemas que estão muito além do alcance de qualquer lei. A forma como as pessoas nos tratam não vão mudar com nenhuma lei, mas sim com anos e anos de educação. Fica notada a tentativa, no entanto. Ainda no artigo 13º, não pude deixar de reparar, na alínea b), o destaque dado às mulheres trans como alvos de discriminações múltiplas. A invisibilização da discriminação sofrida por homens trans (e, no contexto desta alínea em particular, de homens trans que são alvo de outros tipos de discriminações tais como racismo ou homofobia) é algo que me mete uma comichão tremenda no discurso ativista atual. Entendo a ideia de se dar atenção à mulheres, uma vez que são elas que sofrem a maioria da violência transfóbica letal, mas tenho receio que a inclusão desta alínea desta forma acabe por ter como consequência o que vejo na maioria dos espaços ativistas, que é hierarquização de opressões e a resultante negligência da discriminação e violência dirigida aos homens trans. 

Em relação ao artigo 12º (referente ao acesso aos cuidados de saúde), já comentei acima. É muito bonito dizer que se irão garantir esses cuidados, mas hoje em dia já nos dizem isso mesmo sem que, no entanto, esses cuidados estejam efetivamente garantidos. Um ponto positivo que se pode retirar daqui é a oficialização da garantia ao acesso aos cuidados de saúde, de forma a que tal não nos possa ser negado no futuro por qualquer razão. 

Por fim, há que louvar o artigo 15º, que contempla a discriminação laboral em função da identidade de género da pessoa. 

Na generalidade, tenho uma opinião favorável em relação a esta proposta de lei. As falhas que apontei não são críticas, apesar de poderem ainda ser melhor limadas. Fico a aguardar desenvolvimentos (que, aparentemente, só em 2017 é que vão começar a surgir). 
on quarta-feira, 7 de setembro de 2016
Dizem que sou um homem. Digo que sou. Dizem que sim. Parece que sim.
Mas porquê?

Em tempos diziam que era uma mulher. Eu dizia que o era. Assim me diziam, e eu dizia que sim.
O que é que mudou?

O tempo mudou, passou. O tempo passava, e a puberdade eventualmente passou por mim. A minha mãe negociava comigo para comprar soutiens, e eu negociava com o meu corpo para que me deixasse esconder as curvas, o período. Tudo negociações fúteis. Eventualmente rendi-me à realidade que se forçava em mim. Diziam-me que devia ficar feliz, que tinha tudo no sítio, que estava a ficar uma mulher a sério. Eu dizia que sim. Não tinha outra escolha senão aceitar que sim. Portanto aceitava, sempre um bocado relutante. Um peito liso, pêlo facial, nada destas curvas, destas formas, desta sensação de ter comichão mas não ter mãos para me coçar. Muitas vezes sentia que estava a ser alvo de uma piada de mau gosto de uma qualquer entidade divina, deixar-me neste corpo e com uma saudade de ter esse outro tipo de corpo que nunca tinha tido. Diziam-me que era um corpo de homem, algo fora do meu alcance. E eu não tinha coragem de dizer que não.

Não invejava os rapazes por serem rapazes. Nunca deixei de fazer nada (exceto quando as condicionantes sociais sexistas se tornavam impeditivas) por ser uma mulher. Muitas vezes encontrava resistência, mas tal só me deixava com mais orgulho daquilo que fazia, de desafiar a norma. Diziam que era uma maria rapaz incorrigível, e eu dizia que sim, com orgulho. Gostava da distância que esse título me dava do conceito de mulher, permitindo-me em simultâneo manter distância do conceito de homem. Continuavam a dizer que era uma mulher, continuavam a tratar-me como tal, mas dava-me algum conforto, nem que fosse apenas em momentos solitários e introspetivos, sentir que conseguia rebeliar-me levemente contra esse conceito que forçavam em cima de mim.

Por outro lado, sentia vergonha nos momentos em que fazia algo que seria interpretado como feminino, como coisa de mulher. Provavelmente por ser mais masculino habitualmente, as pessoas à minha volta gostavam muito de apontar com entusiasmo qualquer quebra dessa minha postura masculina. Não perdiam tempo em dizer que eu era uma mulher, afinal de contas, por muito maria rapaz que fosse. Tais momentos deixavam-me com uma sensação de vergonha, tristeza, angústia até, sem que eu entendesse porquê. A minha reação imediata era esconder-me, tapar o meu corpo, ir para algum sítio onde ninguém me pudesse ver. Nesses momentos as tais comichões intensificavam-se ao ponto de deixarem de ser comichões. Eram queimaduras, apertos no peito, era uma necessidade urgente de me livrar desta pele, destas formas. Hoje em dia chamar-lhe ia apenas disforia.

A certa altura tropecei no conceito de transsexualidade e, por momentos, tudo pareceu fazer sentido. Diziam que era uma mulher, mas na realidade era um homem. Fazia sentido. Fazia? A parte referente à disforia física encaixava bastante bem, mas o sentido parava aí. Muitos dos "pilares" daquilo que me mostravam que era a transsexualidade não se aplicavam a mim. Não me "sentia" homem. Não sabia sequer o que é que isso significava. Não me sentia homem e nunca me tinha sentido menino na infância, época onde, diz quem entende do assunto, a nossa identidade de género se forma e cimenta. Mas eu não me sentia homem, tal como não me sentia mulher. Entretanto fui introduzido aos conceitos de não binarismo de género, pessoas sem género, genderqueer's e afins. Isso já me fazia algum sentido, conseguia rever-me nesses conceitos. Aos poucos, fui descortinando e desconstruindo um monte de bichinhos que tinha na cabeça sobre género, sexo e sobre a transição. Cheguei à conclusão que precisava e beneficiaria imenso de uma transição física no sentido de obter uma anatomia mais próxima do masculino, e tenho andado nessas andanças há cerca de 3 anos. 

Hoje em dia já ninguém diz que sou uma mulher. A minha apresentação já não dá margem para ambiguidades. Dizem que sou um homem. E eu digo que sim. Podia dizer que não, que era agénero, é o conceito onde sinto que encaixo melhor. Se sentisse que a minha identidade de género fosse uma parte mais relevante do meu ser, provavelmente adotaria esse rótulo. Mas na prática, não me é assim tão importante. Na prática, sou um homem e, como homem, sinto que tenho muito mais poder para modificar esse rótulo, re-definir o que é um homem, moldar esse conceito, desentoxica-lo e torna-lo mais confortável, tanto para mim como para quem mais se encontre cá.

Não sou um homem porque preencho estereótipos de masculinidade - preencho alguns, falho outros.
Não sou um homem porque sinto que sou - não sinto que seja coisa alguma.
Não sou um homem porque tenho o corpo masculino - ainda mantenho características físicas entendidas como exclusivamente femininas, e não tenho planos para as modificar num futuro próximo.

Sou um homem porque me dizem que sou, e sinto-me em paz com isso.
on terça-feira, 21 de junho de 2016
Hoje tropecei num blog novo, Fora de Borda, cujo primeiro post toca num assunto que tenho vindo a tentar abordar aqui. Inicialmente este texto era uma resposta a esse post, mas entretanto expandiu-se e mutou-se de tal forma que decidi publica-lo aqui.

O texto foca-se na questão da legitimidade para discursar sobre determinados temas, no contexto do ativismo lgbt e feminista. Ficam aqui alguns pensamentos que me surgiram ao ler o texto.

Tenho-me tornado cada vez mais convicto de que o critério que confere legitimidade ao discurso de alguém não será apenas a identidade, mas principalmente a experiência. A lógica por trás do critério "identidade" parte do princípio que todas as pessoas dentro de uma determinada categoria identitária terão passado, relativamente a dinâmicas sociais e institucionais de opressão, por experiências semelhantes. Apesar de este critério não ser perfeito (compare-se, por exemplo, os recursos disponíveis a um homem gay a viver numa aldeia no interior do país, com um homem gay a viver num meio urbano), era suficientemente satisfatório para poder ser aplicado na maioria das situações. No entanto, dois "problemas" têm vindo a surgir: 

1) o foco crescente na interseccionalidade de identidades é uma coisa boa, mas complica a aplicação deste critério exclusivamente identitário no apuramento de "legitimidades" para "falar em nome de [x]". Por vezes torna-se complicado entender até que ponto faz sentido alguém falar em nome de [x], tendo em conta que essa pessoa é, em simultâneo, [x], [y] e [z] - até que ponto é que pessoas [x] que não sejam [y] e/ou [z] partilham experiências com a primeira pessoa (e vice-versa) e, consequentemente, poderão as pessoas [x] sentir-se mal representadas uma vez que não são [y] ou [z] (e, da mesma forma, poderá a primeira pessoa sentir-se mal representada pelo discurso de alguém que não seja [y] ou [z]). Será legítimo alguém trazer para a discussão assuntos relativos às identidades [y] e [z] numa discussão sobre [x]? Ou será legítimo sequer discutir [x] sem ter em consideração as pessoas que também serão [y] e/ou [z]? Tenho visto algumas trocas de ideias sobre este assunto e ainda não faço ideia sobre como começar a responder a nenhuma destas questões.

2) a fluidez e abertura de determinadas identidades permitem que mais pessoas se encontrem dentro da mesma categoria identitária (com todas as vantagens que isso pode trazer à pessoa) mas surge o risco de se diluir as experiências relativas a essa identidade. Estar aberto a diferentes vivências dentro de uma determinada categoria identitária é uma coisa boa, mas pode tornar-se algo negativo se essa categoria identitária for resumida a nada mais que um mínimo múltiplo comum entre pessoas que têm experiências, vivências e que estão sujeitas a dinâmicas de privilégio extremamente diferentes. Este é um ponto em relação ao qual que eu, como pessoa trans, cada vez mais me questiono. A definição atualmente mais utilizada de "trans" é "pessoa cujo género difere daquele que lhe foi atribuído à nascença", não tendo em conta coisas como, por exemplo, disforia, transição clínica ou apresentação social. Como tal, existem pessoas trans que estão sujeitas a opressão por sofrerem disforia, estarem a fazer uma transição clínica e/ou social, e existem pessoas trans que não passam por nenhuma destas experiências e, como tal, não estão sujeitas à opressão que lhes está associada. Terão outros problemas e estarão sujeitas a outras dinâmicas de opressão, mas isso é algo que eu não consigo avaliar ou comentar por não fazer parte desse grupo de pessoas. O que me trás ao que eu estava a dizer: apesar de sermos pessoas trans, podemos estar sujeitos a dinâmicas de opressão extremamente divergentes, o que levanta a questão: "mesmo sendo todos trans, quem é que tem legitimidade para falar sobre o quê?". Será legítimo, por exemplo e tendo em conta que o acesso aos cuidados de saúde é um dos grandes temas do ativismo trans, uma pessoa que não passou pelo processo clínico de transição falar sobre o mesmo? E será adequado, tendo em conta que outro grande tema se prende com questões puramente identitárias, uma pessoa trans que passou pelo processo clínico falar sobre a legitimidade da identidade das pessoas trans que não o fizeram? Se avaliarmos estas perguntas pelo critério da identidade, a resposta é "sim" a ambas; no entanto, pessoalmente, penso que tal não faz qualquer sentido. Creio que isto ilustra bem o problema de agruparmos pessoas (e, consequentemente, atribuirmos legitimidade) de acordo com um critério mínimo e pouco ou nada representativo das experiências que as pessoas têm em relação aos diferentes eixos de opressão/privilégio.

O que me trás de volta àquilo que eu estou a tentar defender: o critério prioritário para atribuir legitimidade ao discurso de uma pessoa sobre um determinado tema deve ser a vivência da pessoa, não apenas a sua identidade. 

No entanto, entendo que este critério também possa ter alguns problemas. Um dos problemas é algo que eu por vezes sinto no meio de discussões sobre feminismo e misoginia. Em diversas ocasiões presenciei e participei em discussões sobre a opressão que as mulheres sofrem, na primeira pessoa, e tive vontade de intervir (e, por vezes, fi-lo). Eu sou um homem, portanto à partida não teria nada de relevante a acrescentar a uma discussão dessas. No entanto, vivi a maior parte da minha vida sendo percecionado e tratado como uma mulher e, portanto, passei por muitas das experiências que as mulheres passam. Tenho então, ou não, legitimidade para intervir? Eu diria que sim, porque dou prioridade à vivência em detrimento da identidade, no entanto surgem-me outras questões que me fazem pensar várias vezes antes de dizer algo. Partindo então do princípio que é legítimo eu falar, será adequado? Será útil eu desviar a conversa para incluir a experiência de um homem, quando se está a discutir misoginia e sexismo? Será adequado eu fazer um apelo à inclusão de pessoas que não são mulheres, quando se está a discutir a opressão sofrida por mulheres? Será isto sequer um apelo a uma discussão mais inclusiva, ou será uma invisibilização do problema da misoginia? Será que só o devo fazer se apresentar um disclaimer prévio em que explico que a minha experiência se refere apenas ao passado, quando era percecionado como mulher, exigindo que me exponha como pessoa trans (coisa que não costuma ser um problema para mim, mas será para outras pessoas) e possivelmente tendo de fazer uma pausa na discussão para esclarecer às pessoas presentes qualquer dúvida sobre questões trans (coisa que nem sempre tenho paciência para fazer e que provavelmente irá descarrilar a discussão que estava a acontecer previamente)? Este é outro monte de perguntas às quais eu ainda não sei responder. Normalmente tento avaliar o espaço onde estou, as pessoas e o rumo da conversa antes de tomar uma decisão sobre falar ou não.

Esta questão é também levantada no Fora de Borda:
As dimensões das identidades não são fluídas? Então cada ‘voz’ pode ficar imediatamente sem validade perante o decorrer do tempo, pois todos os espaços e tempos das nossas vidas são parte integrante de quem somos, e quem eu sou agora que escrevo, poderá não ser exatamente quem vai colocar o ponto final neste texto.
Esta é uma questão que me faz pensar e que já abordei antes neste blog (de uma perspetiva pessoal, não reivindicativa). Somos nós uma soma integral de tudo o que fomos no passado, ou somos apenas quem somos agora? E de que forma é que isto influencia a nossa legitimidade para falar sobre identidades que tivemos no passado mas que já não temos presentemente?

Todo este post levanta perguntas às quais não sei responder. Duvido sequer que, para muitas delas, exista uma resposta absoluta. Mas cá ficam as questões, para quem quiser pensar nelas e trocar ideias.
on quarta-feira, 4 de maio de 2016
Lembram-se daquele post que fiz há pouco mais de um ano sobre o mistério das cirurgias em Coimbra? Este ano temos a sequela desse filme, uma espécie de "O Império Contra-Ataca" mas com menos Jedis e plot-twists. Aliás, nada nisto é um plot twist, parece ser apenas uma repetição daquilo que tem sido dito ao longo dos últimos anos. Vamos então ver:

video

Isto passou hoje no jornal da noite na SIC. O conteúdo do vídeo consiste apenas no texto referente ao direito de resposta do hospital de Coimbra, após a reportagem que passou em março do ano passado. Podem ler o conteúdo do vídeo de seguida:

"Por decisão da Entidade Reguladora para a Comunicação Social, passamos a emitir direito de resposta do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra à reportagem especial emitida pela SIC no Jornal da Noite de 17 de Março de 2015, que abordou casos de transexuais à espera de cirurgia para mudança de sexo.

DIREITO DE RESPOSTA
Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, EPE

1. Em finais de 2011, o SNS ficou sem a possibilidade de dar resposta a estes utentes, uma vez que o único cirurgião do SNS (Hospital de Santa Maria) reformou-se, sem que deixasse uma "escola", ou alguém especializado que pudesse dar continuidade a essa actividade; tão pouco foram publicados artigos científicos em revistas de impacto nacional ou internacional;

2. Perante este vazio, o CHUC entendeu assumir a responsabilidade de criar uma unidade que respondesse às necessidades do país nesta área. Foi assim criada a URGUS, que integrou médicos das várias especialidades, que na sua prática clínica já tinham experiência em reconstruções genitais por lesões traumáticas e por outras patologias. Esta Unidade integrou especialistas de cirurgia plástica, ginecologia, endocrinologia, urologia, psiquiatria e psicologia;

3. Em 2012, a URGUS começou a realizar as intervenções necessárias e, a pouco e pouco, foi-se dotando das competências adequadas para atingir os objectivos a que se propôs;

4. Neste momento, foram já realizadas 39 intervenções e 10 doentes já terminaram os respectivos processos de reatribuição sexual;

5. Foi explicado à jornalista que todo o processo de reatribuição sexual feito no CHUC é de acordo com as guidelines internacionais, por isso complexo e demorado, incluindo a avaliação diagnóstica que pode levar vários meses, a terapêutica hormonal num período superior a um ano, a submissão à Ordem dos Médicos para obtenção de autorização para início das intervenções cirúrgicas e, finalmente, as cirurgias, que exigem em geral 5 a 6 tempos operatórios por utente.

6. Foi também explicado à jornalista que neste momento a unidade não tem utentes à espera para além dos tempos clinicamente aceitáveis, sendo que para iniciarem as intervenções cirúrgicas, estão preparados 7 indivíduos, estando à data, um total de 25 em avaliação clínica;

7. Esta reportagem não demonstrou de forma clara o papel da URGUS, o qual foi largamente explicado à Senhora jornalista pelos vários especialistas que a constituem, não tendo sido garantida assim uma informação correcta aos cidadãos;

8. Assistiu-se o vilipendiar por alguns colegas, com notório intuito de nos denegrir e acabar com esta Unidade como instituição do SNS, utilizando métodos que são ofensivos para o bom nome da instituição e para os profissionais envolvidos.

9. Afirmações como as que "não dávamos resposta às solicitações de outros hospitais", fez com que os responsáveis do CHUC já solicitassem a essas unidades de saúde o envio e a relação dos doentes que teriam sido referenciados e, alegadamente, rejeitados.

10. Foi feita de imediato uma queixa à Ordem dos Médicos pois esta matéria fere os princípios éticos e deontológicos da profissão médica;

11. Foram dadas orientações aos nossos advogados para ser feita uma queixa-crime ao DIAP para eventual responsabilização de afirmações e comportamentos ao longo deste processo."

Assim de repente houve uma série de coisas neste direito de resposta que me deixaram imediatamente apreensivo. Então vamos revisitar este pedaço de informação publicado em 2014:


Em 2014 a URGUS declara que 10 pessoas já concluíram o seu processo. 2 anos depois, vêm dizer que 10 pessoas já concluíram o seu processo. Ora, 10 menos 10 dá um grande total de zero pessoas a concluir o seu processo durante os últimos dois anos. De alguma forma a URGUS achou que isto era uma boa defesa contra a acusação de que não andam a dar resposta aos utentes transsexuais. Isso ou acham que nós andamos aqui a dormir e que não temos qualquer memória a médio/longo prazo. Também mencionam 7 pessoas em fila de espera e outras 25 em fase de avaliação, os mesmos números apresentados hoje neste direito de resposta.

Nesse mesmo ano, afinal, já tinham concluído 26 processos:

Devem ter feito ctrl+Z a 16 pessoas entretanto, porque hoje disseram que afinal foram só 10. Esse mesmo número de utentes concluídos aparece também na reportagem da SIC em março do ano passado, sendo que nessa reportagem é-nos também dito que fizeram "quase 40" cirurgias. Vamos assumir o número mínimo a que essas "quase 40" se podem referir: digamos umas 35 cirurgias (menos que isso já estaria demasiado longe de "quase 40"). Portanto, façamos uma estimativa de 35 cirurgias concluídas entre 2012 (data em que a URGUS começa a fazer cirurgias) e 2015, cerca de 8.7 cirurgias por ano. Vamos arredondar isso para 9 (pobre coitada da pessoa que tenha feito 0.7 cirurgias). Portanto, assumindo o número mínimo possível de cirurgias declaradas pela URGUS e arredondando os cálculos por excesso, temos 9 cirurgias por ano entre 2012 e março de 2015. Hoje, a URGUS diz-nos que fez um total de 39 cirurgias, ou seja, 39 (total) menos 35 (feitas até março de 2015) = 4 cirurgias feitas entre março de 2015 e maio de 2016. O que é inconsistente com essa média de 9 por ano, a não ser que a URGUS tenha, por alguma razão, diminuído para menos de metade o número de cirurgias que faz anualmente. 

Os números não favorecem nada o caso da URGUS. Vamos agora olhar para outros 2 pontos interessantes:

No ponto 5, fazem menção a "guidelines internacionais". Não sei a que "guidelines internacionais" é que a URGUS se refere, mas as guidelines mais recentes publicadas pela WPATH (a maior associação de profissionais de saúde especializados na área trans) não referem nenhuma autorização de uma entidade como a Ordem dos Médicos como requisito para qualquer intervenção cirúrgica.

No ponto 6 tentam esconder-se por trás da ambiguidade da expressão "tempos clinicamente aceitáveis", sem definir exatamente o que é que isto significa. Pelo o que observo, parece que Coimbra considera como "aceitáveis" os tempos de espera que levam pessoas ao desespero e/ou a contrair dívidas para poder pagar cirurgias em hospitais privados. 

Eu podia ficar aqui o resto da noite a ressabiar, mas não creio que valha a pena. Quero apenas encerrar este post com um agradecimento à jornalista que fez a reportagem que passou na SIC em março de 2015, que agora se encontra numa péssima situação à custa deste circo todo de Coimbra! 
on terça-feira, 19 de abril de 2016
Muito se fala sobre a questão da despatologização e despsiquiatrização (eu nem sei se esta palavra existe realmente, mas já a vi a ser atirada por aí) da transsexualidade. É um assunto que eu quero um dia elaborar neste blog, mas para já vamos tentar ver exatamente o que é que estas palavras significam na prática. 

Vou começar por fazer um unpacking do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM), 5ª edição (a edição mais recente aquando da escrita deste post), publicada em maio de 2013.

Esta análise não é exaustiva; vai focar-se nos pontos que com mais frequência parecem dar origem a mal-entendidos e desinformação em relação ao que é descrito clinicamente como "Disforia de Género".

Vamos começar por ver onde é que a condição "Disforia de Género" encaixa:


A primeira coisa que salta à vista é o facto de a disforia de género estar separada da secção referente às disfunções sexuais ("Sexual Dysfunctions"). É também de notar que é a única categoria que não inclui "Dysfunction" ou "Disorder" no seu nome.

Olhando para os membros de cada grupo de trabalho encontramos o seguinte:


Poderá ter sido um descuido que levou ao esquecimento da atualização da denominação nesta secção, ou não. Espantou-me ver Kenneth Zucker como chair desta secção. O nome soava-me familiar e uma pesquisa rápida no google mostrou-me um número considerável de links que ligam este médico a acusações de promoção de "terapias reparativas" para pessoas, principalmente crianças, transsexuais. De notar é também a presença de Ray Blanchard, infame pelo cunho da palavra autoginecofilia e da sua respetiva "tipologia de transexualismo" (que, além de redutora e estigmatizante, ignora por completo a existência de homens transsexuais). É possível que a sua presença nesta secção se cinja ao capítulo referente às disfunções sexuais, mas não me é possível descartar por completo a possibilidade de também ter contribuído para o capítulo referente à disforia de género.

Um bocado mais abaixo podemos encontrar Zucker mais uma vez:

Não é claro qual dos grupos de trabalho terá tido um contributo maior na elaboração do capítulo referente à disforia de género. 

(só comentei os nomes que já conhecia previamente, se alguém reconhecer mais algum destes nomes e tiver algo que considere relevante referir, deixem-me um comentário ou um email!)

Ao ver a lista dos códigos deparei-me com o seguinte:


Não ia dar qualquer atenção a esta secção até reparar que "Transvestic Disorder" pode co-existir com autoginecofilia. Portanto, temos algo que não tem nada a ver com identidade de género (travestismo) misturado com uma condição que "descreve" (pessimamente) vários tipos de mulheres transexuais.

A observação seguinte não está diretamente relacionada com a questão da disforia, mas não consegui deixar de achar curioso o seguinte:


Coisas como discórdias com vizinhos, salário baixo ou ser vítima de um crime constam numa lista de patologias psiquiátricas. Isto ajuda um bocado a colocar em perspetiva o quão "patológicas" serão realmente consideradas as condições descritas no DSM.

Durante o capítulo introdutório, é definido aquilo que é considerado "doença mental":


Achei apropriado incluir também o parágrafo que segue a definição para dar ênfase ao facto de o DSM encorajar os profissionais de saúde a agir da forma que for mais benéfica para os utentes, mesmo que não seja formalizado um diagnóstico do que quer que seja. 

O capítulo referente à Disforia de Género começa com uma breve introdução aos conceitos mencionados ao longo do texto. Mesmo no final, pode-se ler:


Portanto, fica desde o início esclarecido o facto de a disforia se referir ao sofrimento ("distress") proveniente da incongruência entre o género da pessoa e o género que lhe foi atribuído, não à identidade da pessoa. Também é de notar que é reconhecido o facto de nem toda a gente cujo género difere daquele que lhe foi atribuído sofre de disforia (pelo que o que é descrito neste capítulo, então, não se aplicará a essas pessoas). 

O documento segue então para os critérios de diagnóstico, que estão divididos entre disforia em crianças e disforia em adolescentes e adultos. Em relação às crianças, os critérios resumem-se à rejeição de atividades estereotipicamente associadas ao género que foi atribuído à criança juntamente com um desejo forte de ser de um outro género (não necessariamente o género "oposto"). 



Nos adultos, os critérios parecem mais focados nas questões físicas e anatómicas. Em ambos os casos, os critérios de diagnóstico incluem questões físicas, sociais, convicções fortes de pertencer a outro género (diferente do que foi atribuído à nascença) que têm de estar presentes durante, pelo menos, 6 meses e têm de causar sofrimento clínico significativo e/ou dificuldades a nível social e/ou ocupacional. Os critérios prevêem a existência de pessoas intersexo (portadoras de "perturbações de desenvolvimento sexual", para seguir a definição que consta no documento) com disforia de género.

Em relação aos adultos, é referida a possibilidade de uma pessoa com disforia de género optar por não se submeter a qualquer intervenção clínica:


No entanto, também é referido o facto de a maioria das pessoas com disforia de género procurarem e precisarem de intervenção clínica (hormonal e cirúrgica) e que muitas estão em risco de suicídio enquanto não têm acesso às intervenções que precisam.

Em relação aos adultos, é reconhecido o facto de existirem pessoas cuja disforia só se manifesta após a puberdade:

Ou seja, não é necessário uma pessoa "saber desde pequena", ao contrário do que um dos maiores estereótipos sobre a transsexualidade dita. 

É também interessante ver que os autores admitem que diferentes contextos culturais podem interferir no diagnóstico, sendo que em alguns contextos poderá nem ser possível aplicar os critérios:



O documento também prevê a existência de pessoas que, apesar de terem comportamentos, atitudes ou gostos associados ao género oposto, não sobrem disforia:


Ou seja, as pessoas que não se conformam às expectativas sociais do seu género não recebem, apenas por isso, um diagnóstico.

Algo que vejo com alguma frequência é a ideia de que quem tem esquizofrenia não pode ser diagnosticado com disforia de género. No entanto, o DSM diz o contrário:




Rondas bónus! 

Já que tenho o DSM aberto, vamos olhar para outras secções que normalmente são trazidas ao barulho quando se fala sobre transsexualidade.

Bónus 1: Travestismo

Ao contrário do que já vi ser afirmado por algumas pessoas, o DSM não considera o travestismo como uma perturbação. O que consta no DSM é o que chamam de "transvestic disorder", que se encontra dentro da secção das parafilias. No entanto, é feita uma diferenciação entre parafilia:



e perturbações parafílicas:

Ou seja, só são diagnosticados como perturbações os casos em que a parafilia causa uma diminuição da qualidade de vida da pessoa ou causa danos a terceiros (sendo considerado algo normal em qualquer outro caso). Vamos então olhar mais de perto a perturbação de travestismo:


O ato de travestismo tem de causar uma diminuição da função (social, laboral, etc) de um indivíduo para ser considerada uma perturbação;

Outro ponto curioso: 

Portanto, uma mulher transsexual provavelmente não poderá ter fetiches, de acordo com estes critérios. Curiosamente, consideram que a presença de autoginecofilia um ponto a "favor" para um diagnóstico de disforia de género. Seria interessante mostrar isto ao monte de pessoas que dizem que a presença de autoginecofilia anula o diagnóstico de disforia de género (argumento que eu já vi várias vezes a ser feito por quem tenta pintar as mulheres transsexuais como homens tarados).

Outro pedaço de informação que achei interessante:


Consideram que o travestismo pode desenvolver-se e tornar-se disforia, como se o travestismo fosse a causa da disforia. Acho curioso como não colocam a hipótese de, nestes casos, o travestismo poder ser um sintoma, não uma causa, de disforia de género. 

E só mesmo porque eu gosto de ser chato e mandar vir com estes pormenores:


Claro, porque os gays estão todos totalmente serenos com a possibilidade dos seus parceiros gostarem de usar roupa de mulher. Porque os gays são todos assim mente aberta, nada misóginos nem existe uma cultura de masculinidade tão tóxica como no resto da sociedade heteronormativa. Claro.

Bónus 2: Transtorno dismórfico corporal

Isto é algo que vejo a ser comparado e igualado à disforia com alguma frequência. Vamos olhar para os critérios de diagnóstico:


A razão pela qual pode parecer que as pessoas transsexuais encaixam dentro destes critérios é porque, para quem não é transsexual, as questões relacionadas com a imagem corporal (ou seja, com a disforia) não passam de obcessões com "partes do corpo saudáveis". No entanto, esta linha de pensamento só se mantém de pé enquanto não consideramos as pessoas transsexuais como pertencentes ao género a que declaram pertencer. Ou seja, por exemplo, a presença de mamas numa mulher não será algo interpretado como um defeito físico significativo, mas num homem sim. No entanto, enquanto as pessoas não virem um homem transsexual como homem, vão sempre pensar que se trata de uma mulher com problemas de imagem corporal. 

Ao longo do texto referente a esta secção, não é feito qualquer paralelismo ou sequer menção à disforia de género. 

Bónus 3: Homossexualidade

A homossexualidade constava no DSM até 1974, ano em que foi retirada do mesmo na re-edição do manual desse mesmo ano. Fui espreitar na última edição em que a homossexualidade aparecia listada: a segunda edição, editada em 1968. 

Nesse documento, a homossexualidade aparece categorizada como um "Desvio sexual", o que por sua vez se encontra dentro das "perturbações de personalidade e outras doenças mentais não-psicóticas" (tradução livre de "Personality disorders and certain other non-psychotic mental disorders"):



O documento não elabora mais do que isto, mas chega para ver que o que constava no manual sobre a homossexualidade não se compara ao que hoje em dia se pode ler em relação à disforia de género. Para ser diagnosticada com disforia de género, uma pessoa tem de ter a iniciativa de declarar o seu género e tem de existir sofrimento clinicamente relevante, que é o que vai ser diagnosticado e tratado. Ou seja, é um diagnóstico centrado no indivíduo que sofre de disforia e nas suas necessidades. 

Em contraste, o diagnóstico de homossexualidade centra-se em julgamentos morais daquilo que é considerado "atos sexuais (...) sob circunstâncias bizarras" e "comportamento sexual normal". 
on quinta-feira, 3 de março de 2016
Sinto que se passou uma eternidade desde a última vez que escrevi por aqui. Foram só (quase) dois meses, mas foram tão intensos e preenchidos com trabalho que tenho andado com a sensação que se passou meio ano desde a última vez que tive tempo para relaxar e escrever um bocado. Foram os últimos 2 meses de trabalho para a minha dissertação de mestrado, para a qual ando a trabalhar a sério desde setembro do ano passado. Tem sido uma experiência interessante, não só obviamente pela parte académica, mas também pelo facto de ser a primeira vez em que estou inserido num contexto em que ninguém sabe que sou trans.

Até ter começado este trabalho podia dizer que toda a gente que me conhecia sabia que eu era trans. Familiares, colegas de curso, amigos de infância, amigos de outros círculos, não era segredo para ninguém. Quando cheguei ao local onde iria desenvolver o trabalho para a dissertação, tinha tudo o que é documento já mudado, era socialmente visto como um rapaz, não via qualquer motivo para anunciar que era trans a nenhum dos meus colegas de trabalho. Portanto, não o fiz. E é estranho. Estou tão habituado ao facto de ser trans ser algo banal que me senti alienado e censurado por mim próprio em várias situações. Na língua inglesa existe o termo "stealth" para designar a condição de se ser trans sem que ninguém saiba, como se estivéssemos a "voar debaixo do radar" de deteção das pessoas. No entanto, tenho vindo a descobrir que poucas pessoas possuem tal "radar".

Ocorreram duas situações em que tive um pequeno deslize e acabei por dizer coisas que, achava eu, me iriam "denunciar", ou pelo menos fazer as pessoas suspeitar. O primeiro foi ter comentado que tinha, em tempos, tido cabelo comprido. Agora dito desta forma não parece grande coisa, há montes de homens com cabelo comprido, mas na altura dei uma importância demasiadamente grande a este lapso. Uns tempos mais tarde estava cheio de pressa para sair, tinha de apanhar o autocarro a tempo de apanhar o centro de saúde aberto para poder tratar da injeção das hormonas. Espera, eu disse isto alto e toda a gente ouviu? Oops.

Foram dois pequenos momentos de pânico, até me aperceber que ninguém fez qualquer tipo de ligação entre o que eu disse e a possibilidade de eu ser trans. Desde aí tenho andado a testar as águas, a tentar descobrir quanta informação é que consigo revelar às pessoas até elas dizerem alguma coisa. O que tenho descoberto é precisamente o oposto daquilo que eu pensava que ia acontecer: por muito que eu conte, ninguém suspeita de nada. 

Por esta altura os meus colegas de trabalho já sabem de tudo o que eu fiz durante a minha transição, só não sabem que foi num contexto de transição. Sabem que no passado as pessoas me confundiam com uma rapariga, em grande parte devido ao cabelo comprido que tinha na altura. Sabem que ando a fazer uma terapia hormonal porque o meu corpo não produz testosterona suficiente. Sabem que já tive mamas e que fiz uma mastectomia para as retirar. Sabem que vou fazer uma revisão à mastectomia nos próximos dias. Mas não sabem que sou trans, nunca juntaram as peças.

O que me está a causar estranheza (de uma forma... positiva, suponho?) é a forma como as pessoas reagem a estes pedaços de informação descontextualizada que lhes vou dando. Eu já tinha (e tenho) no passado falado com pessoas cis sobre as cirurgias e procedimentos clínicos que faço ou planeio fazer, explicitando que são num contexto de transição e de transexualidade. Na maioria dos casos, as reações são de estranheza, como se tudo relacionado com a transição fosse alienígena e extraordinário. Na melhor das hipóteses dizem-me que acham tudo isto muito complicado e difícil e dizem ter uma admiração enorme por as pessoas trans terem a coragem de fazer tudo isto e que nunca se imaginariam a passar pelo mesmo; na pior das hipóteses dizem que é tudo muito estranho, confuso e horrível.

Quando omito a parte da transexualidade, as reações são completamente diferentes. De todas as vezes que revelei algo, alguém dizia que tinha um amigo ou familiar (ou eles próprios) que tinha passado por algo semelhante. Uma tinha uma prima que teve um problema nos ovários quando era jovem e agora também toma hormonas para poder ter os níveis hormonais normais. Depois o amigo do outro teve um acidente que o deixou também assim com umas cicatrizes grandes no peito. E a outra ainda comentou que teve de retirar um tumor de uma das mamas e que o procedimento deve ter sido parecido com o meu; o meu foi só um bocado mais "radical", mas no fundo era tudo o mesmo. Subitamente, as pessoas afinal já têm referências às quais comparar aquilo que eu fiz durante a minha transição. Afinal, já não são coisas assim tão extraordinárias, são coisas que acontecem aos amigos, familiares, a nós próprios. Consigo falar com elas sobre a recuperação post-op, sobre os inconvenientes de tomar uma medicação durante toda a vida, sobre como lidar com cicatrizes visíveis - tudo sem receber expressões vazias acompanhadas de "pois, isso é tudo tão estranho, não faço ideia de como será". Subitamente já não me sinto como um "outro", um outlier.

É impressionante, e triste, a forma como a palavra "transexual" nos torna automatica e acriticamente objetos de estranheza com os quais nenhuma "pessoa normal" se consegue identificar. Na realidade, o que nós fazemos não é assim tão diferente. É mesmo uma pena as pessoas só o verem quando lhes omitimos a parte da transexualidade.

Tudo isto me faz pensar no grau de abertura que realmente quero ou não ter em relação à minha condição como pessoa transexual. Se por um lado gosto de ser aberto em relação a isto, confesso que a sensação de ser visto como um ser humano completamente "normal" (na perspetiva da sociedade, claro) e com quem as pessoas se conseguem identificar é extremamente agradável. Eu sempre tinha pensado que nunca conseguiria construir uma relação de amizade com alguém caso omitisse esta parte de quem sou, mas neste momento já não sei. A palavra "transexual" queima muitas pontes e eu já não sei se isso sempre vale a pena ou não.